RETORNOS, EXÍLIOS E ALGUNS QUE FICARAM

RTD_0453

18 e 19 de Fev, às 15h (escolas) | 19 e 20 de Fev, às 21h30

Solar do Vinho do Dão, Viseu

I.
Na sequência do processo de descolonização de 1974-75, milhares de pessoas regressaram das ex-colónias portuguesas. Mas o que quer exactamente dizer este ‘regressar’? Dentre essas pessoas há as histórias daqueles que pouca relação tinham com Portugal, considerando portanto que são exilados e não retornados; outros há que decidiram ficar lá e ajudar a construir um país novo; outros ainda que, embora retornando, não o tinham desejado. Chegados à ‘metrópole’, enfrentaram toda a forma de desafios e provações destinadas aos que começam do zero, num clima de acentuado preconceito para consigo, os “retornados”, os que “vinham ocupar os lugares dos que já cá estavam antes”, tudo isto aliado a imagens de um colonialismo de chibata na mão com que estas pessoas foram representadas no imaginário dos que habitavam a metrópole. Desta história complexa e contraditória localizada no contexto de um também complexo e contraditório processo revolucionário, estamos ainda hoje a tentar discernir os fios com que se entretecem as narrativas oficiais da história de Portugal desse período. Foi por desconfiarmos das narrativas oficiais e também por acreditarmos numa história construída a partir de testemunhos directos dos seus intervenientes – ou seja das pessoas – e talvez, mais fundamentalmente, por não sermos historiadores mas sim criadores teatrais, que fomos à procura dessas pessoas e das suas história e com elas construímos este espectáculo – que é uma viagem por vidas, por traumas, por livros de história, por pequenas e grandes memórias, e pelas nossas próprias perplexidades ante tudo isto.

 

 “No IARN as secretárias eram velhas e sujas e as cadeiras onde os retornados se sentavam quando chegava a sua vez estavam desconjuntadas…Estavam lá retornados de todos os cantos do império, o império estava ali, naquela sala, um império cansado, a precisar de casa e de comida…”

(Dulce Maria Cardoso, O Retorno) 

II.
Construído a partir de uma aprofundada recolha de testemunhos e histórias de vida de pessoas que viviam nas ex-colónias portuguesas aquando do processo de Descolonização e de independência destas novas nações africanas, este espectáculo foi criado especificamente para ser apresentado no Solar do Dão, em Viseu, local emblemático deste processo de retorno e que serviu como um dos locais de residência do Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais (IARN) entre 1975 e 1991 naquela região. A recolha de testemunhos teve lugar precisamente na região de Viseu, num trabalho aprofundado que combina a pesquisa etnográfica no terreno, a história oral, e a investigação histórica. Sentimos que uma das missões primordiais do Teatro do Vestido neste momento é a de abordar de forma performática fragmentos da história de Portugal que nos possam fazer melhor entender o nosso presente, desafiando aquilo que Eric Hobsbawn descreveu como este “presente permanente” em que todos vivemos.

III.
Falar no plural é sempre difícil – eles. Generalizar é sempre perigoso – eles, outra vez. Eles e nós. Neste espectáculo, procuramos ir para além do eles, para descobrir a singularidade de cada uma das histórias, onde eles próprios se assumem ou como retornados, ou como refugiados, ou como exilados, ou até como nada disso, como pessoas só, apanhadas num momento histórico de grande complexidade e que os afectou de uma forma directa e imediata. Dar a possibilidade a diferentes vozes deste processo serem ouvidas, foi uma das coisas que nos propusemos fazer. Esse é, acreditamos, um papel fundamente que o Teatro pode ter. Repetimos que este espectáculo é construído a partir de exemplos únicos, que não é possível escrever uma história colectiva destas pessoas – por muito que seja tentador aproximar as experiências de cada um e dizer ‘ah, os retornados’.
Todos eles viveram um retorno diferente.
E ainda hoje, muitos dentre eles, estão presos dentro da memória desse retorno.
Porque nos horroriza a vitimização, o carpir colectivo, tanto quanto o sectarismo ideológico, a ignorância histórica e o preconceito, a ideia principal que está na base da construção deste espectáculo é a de reconciliação – do país e das pessoas com a sua história, e do país entre si.

 Joana Craveiro

 

Direcção, texto, espaço cénico: Joana Craveiro
Interpretação: André Amálio, Isabelle Coelho, Joana Craveiro e Rosinda Costa
Desenho de luz: Cristóvão Cunha
Operação de luz: Pedro Teixeira
Produção: Cláudia Teixeira
Assistência: Maria Aguiar
Co-produção: Teatro do Vestido e Teatro Viriato

Duração: 2h30 aprox.
No final do espectáculo haverá uma conversa com os espectadores.

Para mais informações, por favor consulte o site do Teatro Viriato

 

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