Começa hoje a nossa viagem poética

Viagem a Portugal

ou como saber quando a viagem acaba

Sabemos como estas coisas se passam. Metemos o carro ao caminho sem destino e depois é isto. Às terras sucedem-se as terras, às estradas as estradas, e às paragens as paragens. Não há como saber até onde.

Desde há anos a esta parte a trabalhar em regime intensivo sobre memórias de pessoas, histórias de vida, memórias de trabalho, de terras, de lugares, demos por nós com o carro cheio.

Não cabia mais nada, mas – por onde começar?

O projecto viagem a Portugal iniciou-se oficialmente em Janeiro passado, com a colaboração com as Comédias do Minho – chamámos-lhe Paragem Minho. Foi toda uma viagem. Depois chegámos ao Centro, que andávamos a rondar e a percorrer desde o ano passado. Foi em colaboração com o Festival Materiais Diversos, em Alcanena, em Setembro. E, agora, Viseu. Uma paragem singular que marca o fim da viagem sem fim. E durante todo o tempo, aquela música. Aquela.

Porque a paragem final de um projecto é sempre o culminar de alguma coisa que se andou a escavar, bem-vindos à nossa dramaturgia em camadas, à nossa poesia, às nossas homenagens – a José Saramago, a Sophia de Mello Breyner, a José Mário Branco, que nos morreu tão de repente; às pessoas que nos contaram as suas histórias, às pessoas-protagonistas de todas as histórias que nos constituem e que nos trazem até aqui. Bem-vindos à nossa confusão, à nossa interpretação, à nossa leitura das coisas; bem-vindos às nossas dúvidas, às nossas ausências, ao que nos falta saber, ao que não nos foi explicado e que tivemos que tentar perceber de uma maneira muito nossa. Na margem, de certa maneira, a olhar o centro das coisas e a pensar – e como é que se fala disto tudo? E o que é isto de um país? Aprendemos com os outros, os Antes de Nós, o preço e o valor de certas Coisas, que não são na verdade Coisas mas Valores, Princípios e Direitos. Fazer perguntas na volta das respostas, eternamente perguntar porquê, explica-me, como assim?, outra vez. Olha outra vez quando não vês esperança. Procura outra vez quando te dizem que já não dá. Vai lá outra vez quando te falam em muros e em portas e em como é difícil, mania de usar essa palavra como se não houvesse outra. Difícil. Pois.

Teatro do Vestido, 18 anos de idade, a braços com uma ideia de Portugal e abrindo-a ao mundo, que o nosso problema (como país) foi por vezes estarmos abertos ao mundo no sítio errado e sem nos abrirmos de facto – fosse por medo, complexos, ou simplesmente porque acreditávamos que era mais seguro sozinhos – ou porque não sabíamos como fazer.

Partimos para esta última paragem a saber que o que tínhamos feito nas paragens anteriores era irrepetível. Esta é, por isso, uma estreia mesmo. E que alegria que o seja aqui, no Teatro Viriato, a que chamamos Casa; com esta equipa, a que chamamos Família.

Esta viagem não foi pensada como manifesto, mas como pergunta.

Joana Craveiro

(já sabem que isto foi escrito naquela velha ortografia)
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Nova criação do Teatro do Vestido estreia dia 12 de Dezembro no Teatro Viriato, em Viseu

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Viajantes Solitários em Digressão

Viajantes Solitários

9, 10 e 11 Outubro – 21h30 | Teatro Viriato – Viseu
14, 15 e 16 Outubro – 21h30 | Sede Patinter – Mangualde

Em que pensam os camionistas durante todos os quilómetros que percorrem? O que acontece com estes homens durante estas viagens? Que viajantes são estes e como mitigam a sua solidão? Se tivessem que parar de meter-se à estrada, aguentariam? E as famílias – há lugar para elas nestas histórias?

Depois da estreia no Teatro Viriato em 2015, “Viajantes Solitários” do Teatro do Vestido regressa a Viseu para três apresentações nos dias 9, 10 e 11 de Outubro. Segue posteriormente para Mangualde para a sede da Patinter, empresa que com o Teatro Viriato lançou o desafio ao Teatro do Vestido reconhecendo o trabalho ímpar que este coletivo tem vindo a desenvolver a partir da recolha de testemunhos e histórias de vida.

Construído a partir de uma extensa recolha de histórias de vida e de ‘estrada’ de camionistas, o espetáculo explora as possibilidades poéticas dessas vidas de permanente deslocação, vidas também de quilómetros de solidão, de distância física das famílias, de passagens, de noites fugazes, de um conhecimento geográfico de autoestradas, estradas nacionais, restaurantes de beira de estrada, hotéis. Um espetáculo que é uma espécie de manual de um viajante singular, ao mesmo tempo que falando dessa inquietação portuguesa que bem conhecemos – a de partir; e, estando lá fora, a vontade de regressar, para de novo partir, impelidos por essa coisa que nos puxa a percorrer quilómetros, após quilómetros, após quilómetros, continuamente.

Viajantes Solitários

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