Gaveta de Joana Craveiro

Este solo, que combina objectos de memória do espólio pessoal de Joana Craveiro com uma colecção de fotografias de uma família anónima, adquiridas numa feira da Bagageira em 2018, reflecte sobre a memória e as formas de a fixar, bem como sobre segredos, omissões e apagamentos, partindo da frase de Annette Kuhn, “o passado é como a cena de um crime.” Annette Kuhn em Family Secrets, parte ela própria de uma única imagem da sua infância – uma aparente imagem de felicidade e inocência – para revelar a sua história pessoa de abandono. A imagem não regista o seu trauma de infância.

Em Gaveta, Joana Craveiro parte de um colecção de fotografias que existia em casa da sua avó, mas que nunca lhe foi contada, para a relacionar com a outra colecção adquirida em 2018. No fundo, em ambas as colecções, são quase todos desconhecidos para Joana Craveiro. Como Christian Boltanski disse, “Hoje em dia morremos duas vezes: a primeira quando morremos de facto; a segunda, quando já ninguém sabe quem somos numa fotografia.”

O que é que uma colecção cuidadosamente legendada diz sobre a vida desta família de uma possível classe média baixa, no Portugal do final dos anos 50, até aos anos 70? Que transformações na paisagem, na política, nas relações de género, e nas dinâmicas familiares podem ser intuídas naquele conjunto de imagens? E, porque acabaria uma colecção destas numa feira, vendida a uma desconhecida?

A colecção pessoal de Joana Craveiro, por seu turno, longe do nível de conservação da colecção adquirida, está na posse de um elemento familiar com alguma ligação às imagens. A vontade de preservar não existia desde o início; mas a colecção foi preservada, não obstante. Ficou ‘na família.’

O espectáculo reflecte sobre os usos pessoais, políticos, familiares e afectivos das fotografias. E também sobre a materialidade destes objectos num mundo cada vez mais imaterial.

Rodapé gaveta

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