Carta-Oceano

Primeira residência criativa no Festival Escrita na Paisagem  em Alvito| Agosto de 2007
Segunda residência criativa e Estreia no Convento do Carmo em Évora no âmbito do Festival Escrita na Paisagem| Setembro de 2007
Estreia no Pavilhão 27 do Hospital Júlio de Matos | 31 de Outubro a 1 de Dezembro de 2007
Apresentação Instituto Franco-Português no âmbito da Festa da Francofonia | 13 de Março 2008
Desenvolvido em colaboração com direcção de Joana Craveiro e  interpretação de  Gonçalo Alegria, Joana Craveiro e Tânia Guerreiro.
 
A carta-oceano não é um novo género poético
                É uma mensagem prática de tarifa regressiva e muito
           mais barata do que um telegrama
          (…)
                 Vou servir-me dela durante a travessia do Atlântico
           Sul entre Dakar e Rio de Janeiro para enviar mensagens
           para trás porque só pode ser utilizada neste sentido
                A carta-oceano não foi inventada para fazer poesia
               Mas quando se viaja quando se negoceia quando se
          está a bordo quando se enviam cartas-oceano
Faz-se poesia
Blaise Cendrars in, Folhas de Viagem

Carta-Oceano é o resultado de um projecto de pesquisa alargado que denominámos Projecto Blaise, no qual nos propusémos investigar a vida e obra do poeta Blaise Cendrars e transformar os materiais resultantes dessa pesquisa num objecto performativo. Esse objecto é Carta-Oceano, um espectáculo-manifesto, épico-político, trabalho experimental em que Blaise Cendrars passou de mote a personagem, e regressou a mote à medida que cada um dos intervenientes assumia o seu papel enquanto agente criador do espectáculo.

Primeiro procurámos saber sobre o que era o nosso espectáculo. Fizemos apresentações sobre isso, uns para os outros. Era uma longa lista em que cada frase se iniciava com “é sobre…”. Depois investigámos e debatemos diariamente as nossas descobertas. Um de nós desenhou num mapa o percurso do transiberiano (do qual Blaise Cendrars fala em “A Prosa do Transiberiano”). Outro ditou cartas; outra fez uma instalação; outra fez um percurso gastronómico. Depois fomos para estágio/ residência.

Numa casa perto do Alvito encenámos cada noite o “Jantar dos Tios”, inspirado no poema de Blaise Cendrars “O Panamá ou a Aventura dos Meus Sete Tios.” Voltámos ao percurso do Transiberiano, descobrimos o poema “Carta-Oceano” quando líamos o livro Folhas de Viagem de Blaise Cendrars numa casa meio submersa na Barragem do Alvito. Escrevemos cartas-oceano pessoais para nos treinarmos; aconteceu num passeio nocturno no Alvito. Vimos uma estrela cadente enorme e todos reagimos em uníssono. Comovemo-nos.

Fizemos uma apresentação dos materiais construídos ao longo da semana, na Biblioteca Municipal de Alvito, onde acabámos a trocar histórias com o nosso público dessa noite. No dia seguinte, regressámos a Lisboa.

Improvisámos intensamente durante uma semana e escrevemos na parede o princípio de uma estrutura. Chamámos ao resultado desta semana “Terminal.” Este corresponde hoje à segunda parte do espectáculo. Onde a viagem se revela em todas as suas vertentes, mesmo nas mais negativas. Onde a memória, as referências pessoais de cada um e o cruzamento das suas ansiedades se combinam na construção de um não-lugar num não-tempo, que é ao mesmo tempo todos os lugares e todos os tempos. Ou não representasse a viagem tudo isso. A viagem espaço de representação. Na parte chamada “Terminal”, destruímos as representações idealizadas e mostramos o avesso das fantasias.

Por entre viagens que fizemos durante o processo, dúvidas, procuras e pesquisas, ausências, regressos, o livro Poesia em Viagem, de Cendrars, era o nosso porto de abrigo, o local aonde regressávamos na procura de estrutura, de coerência, de sentido.

Quando Carta-Oceano se começou a assumir enquanto fragmento de histórias, cenas e ambientes, compreendemos como deveria ser o nosso estar, compreendemos o nosso próprio processo e pudemos finalmente fazer o mapa da nossa metodologia até então. Foi quando abandonámos a ansiedade e começámos a habitar tudo o que tínhamos construído. Foi como ter recebido um visto de residência.

Hoje, falamos de Carta-Oceano como um país-percurso cheio de acidentes, paragens e terminais. Uma zona de perguntas e de possibilidades. De afirmações contraditórias. De uma exposição mascarada pela ironia e pela perplexidade que sentimos por habitarmos os lugares que habitamos. Por sermos quem somos. Por continuarmos. Apesar de tudo. Acreditamos que Carta-Oceano é, na sua essência, um espectáculo optimista.

 

Comments are closed.