Dia #6

Por Joana Craveiro

Voltei a ela (mas não abandonei elizabeth)
Discursos para o Dr. Frankenstein (Margaret Atwood)

i
Eu, o performer
na arena tensa, resplandecia
sob a lua fluorescente. Estava dobrado
escondido pela mesa. Via o que focava
o meu intento: o vazio

O ar cheio de um éter de saudações.

O meu pulso chegava ao bisturi

ii
A mesa é um vazio liso,
árido como a liberdade total. Mas observa

Uma rápida torção
como tirar a tampa de uma garrafa
e é um esqueleto
vivo, meu, redondo,
que se apresenta no prato à minha frente
vermelho como uma romã,
cada célula uma luz quente.

iii
Cerco, confronto
o meu oponente. A coisa recusa-se ser moldada, move-se
como levedura. Eu empurro
a coisa reage.

Dissolve-se, grunhe, crescem-lhe cruas garras;

O ar está enevoado de sangue.

Salta. Corto
com uma delicada precisão.

Os espécimes
arrumados nas prateleiras, aplaudem.

A coisa cai com um baque surdo. Um gato
anatomizado.

Ó secreta
forma do coração, agora tenho-te.

iv
Agora vou ornamentar-te.

Do que é que gostavas?

Pergaminhos barrocos nos teus tornozelos?

Um umbigo de prata?

Sou o tecelão universal;
tenho oito dedos.

Complico-te
cerco-te com cordas intrincadas.

Em que teia te devo atar?

Gradualmente, prendo-te.

Que equação devo
gravar e selar no teu crânio?

De que tamanho te farei?

Onde devo colocar os teus olhos?

v
Fui insano com arte:

Fiz-te perfeito.

Devia antes ter escolhido

Enrolar-te tão pequeno quanto uma semente,
começos confiáveis. Agora recuo
perante este conjunto de resultados:
âmago e casca, a carne do meio
já a ficar podre.

Estou na presença
do deus destruído:
um cascalho de tendões,
tornozelos e crus sustentáculos.

Sabendo que a obra é minha
como posso amar-te?

Estes arquivos de tempo
potencial exalam medo como se fosse um cheiro.
(continua) (1968)

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