Por Joana Craveiro
Voltei a ela (mas não abandonei elizabeth)
Discursos para o Dr. Frankenstein (Margaret Atwood)
i
Eu, o performer
na arena tensa, resplandecia
sob a lua fluorescente. Estava dobrado
escondido pela mesa. Via o que focava
o meu intento: o vazio
O ar cheio de um éter de saudações.
O meu pulso chegava ao bisturi
ii
A mesa é um vazio liso,
árido como a liberdade total. Mas observa
Uma rápida torção
como tirar a tampa de uma garrafa
e é um esqueleto
vivo, meu, redondo,
que se apresenta no prato à minha frente
vermelho como uma romã,
cada célula uma luz quente.
iii
Cerco, confronto
o meu oponente. A coisa recusa-se ser moldada, move-se
como levedura. Eu empurro
a coisa reage.
Dissolve-se, grunhe, crescem-lhe cruas garras;
O ar está enevoado de sangue.
Salta. Corto
com uma delicada precisão.
Os espécimes
arrumados nas prateleiras, aplaudem.
A coisa cai com um baque surdo. Um gato
anatomizado.
Ó secreta
forma do coração, agora tenho-te.
iv
Agora vou ornamentar-te.
Do que é que gostavas?
Pergaminhos barrocos nos teus tornozelos?
Um umbigo de prata?
Sou o tecelão universal;
tenho oito dedos.
Complico-te
cerco-te com cordas intrincadas.
Em que teia te devo atar?
Gradualmente, prendo-te.
Que equação devo
gravar e selar no teu crânio?
De que tamanho te farei?
Onde devo colocar os teus olhos?
v
Fui insano com arte:
Fiz-te perfeito.
Devia antes ter escolhido
Enrolar-te tão pequeno quanto uma semente,
começos confiáveis. Agora recuo
perante este conjunto de resultados:
âmago e casca, a carne do meio
já a ficar podre.
Estou na presença
do deus destruído:
um cascalho de tendões,
tornozelos e crus sustentáculos.
Sabendo que a obra é minha
como posso amar-te?
Estes arquivos de tempo
potencial exalam medo como se fosse um cheiro.
(continua) (1968)