Nómadas

Estreia NegócioZDB, Lisboa | 9 a 12 e 16 a 19 Dezembro 2009
Desenvolvido em colaboração, com direcção de Joana Craveiro e interpretação de Gonçalo Alegria, Milton Lopes e Pedro Caeiro.

Por Joana Craveiro

Eles são três homens (quase sempre).
Eles não têm casa.
Ou melhor, têm, mas não se chama assim.
Eles partem das obras, não, dos autores, não, das obras, não, de nada disso. Olha, não sei. Mas rapidamente vão para longe, muito longe dali.
Eles ainda estão naquele sítio de não saber como se faz um espectáculo a partir de. Mas talvez eles descubram tudo já desta vez.
Eles são desorganizados, por vezes violentos, eles fazem teatro e nada daquilo é sincero.
Eles se calhar nem leram os livros até ao fim.
Eles são os três tão diferentes, mas algures, este é o mundo deles e nós somos só os convidados.

Depois de Porque na Noite Terrena Sou Mais Fiel que Um Cão, a peça delas, o Teatro do Vestido cria Nómadas, a peça deles, a partir dos universos de Thomas Pynchon, Malcolm Lowry e Paul Bowles.

O que quer dizer exactamente a partir de? Ainda não sabemos. Mas talvez possamos descrever um pouco do nosso processo: cada um deles tem a seu cargo o universo de um autor. Portanto, leu, pesquisou, estudou, encontrou ligações, outras referências, trouxe apontamentos para uma dramaturgia. Era como traçar um caminho. Uma espécie de mapa. Daqui vou para ali. Encontrei esta ramificação. Vou abrir esta porta, fechar aquela.Depois começámos a ver como é que o material dialogava entre si.
Depois já estávamos a fazer tudo seguido.
Depois encontrávamos novas ligações.
Depois ainda nos perguntávamos se aquilo fazia algum sentido.
Depois descobríamos que não era de sentido que se tratava, mas sim de uma outra coisa, de preferência no plural.

E nisto tudo a cumplicidade da ZDB, que nos abriu primeiro o centro de documentação, e depois a galeria, e agora o Negócio. De cada vez que alargava o espaço, alargavam as nossas questões. Apesar de sabermos que é mesmo assim, dava um certo frio na barriga. Cólicas, ou lá o que é.

Em Nómadas há relações que não funcionam, comunicações que são dificultadas pelo ruído, grandes expectativas e fracas concretizações, teatros que se ensaiam, toda uma contra-regra complicada, há muitas coisas que são verdade e outras que só acontecem nos livros, há pessoas a mais na vida deles, e há uma fraca capacidade para gerir tudo isso.
Como já dissemos antes, Nómadas não tem mesmo nada a ver com viagens, apesar do título, dos autores, e de uma certa tendência nossa para falarmos sobre isso.

Pequeno glossário:
Alasca – referência óbvia a uma música dos Velvet Underground, “Stephanie Says.” [‘the people all call her Alaska…’]
Carpenters – banda pop dos anos 60. A vocalista teve um final trágico e uma relação não assumida com um homem que afinal a amava, que deu origem a um filho ilegítimo. Ninguém sabe onde pára a criança. Estes assuntos não foram tratados em nenhuma das suas canções.
Debra Winger mais robusta que John Malkovitch, ela consegue não apanhar malária, mas torna-se escrava sexual de um Tuaregue. Nesse momento o filme torna-se uma espécie de videoclip piroso dos anos 80.
Entropia – a teoria da informação diz que, quanto menos informaçõessobre um sistema, maior será sua entropia. Isso remete ao facto de as equações matemáticas para a entropia usarem métodos probabilísticos para serem deduzidas. Sendo assim, quanto maior o número de arranjos possíveis, maior será a entropia.
Fred Astaire – começou a dançar com a irmã. É tudo o que sabemos.
Dr. Vigil – tão alcoólico quanto Firmin, consegue disfarçar melhor. Encontrou-se hoje com Laruelle antes da sua partida definitiva do México. Afinal Vigil também trata doenças venéreas, como vimos a perceber no final quando o anão dá aquele cartão a Firmin.
Gaspar, ou Kasper – não aprendeu ainda o mais básico: defender-se na selva humana. Antes disso tem ainda que aprender a andar e a aceitar a fraca generosidade dos que o rodeiam.
Geoffrey Firmin – sentado a beber numa cantina mexicana em Quauhnahuac, Firmin, o cônsul, ainda não se deitou desde ontem. Na festa, o Dr. Vigil tinha metido conversa com ele dizendo, “Interesso-me muito pelos loucos.”
Ilya Kabakov – pai de um de nós.
Jacques Laruelle – está de partida. Claro que ainda gosta dela, mas isso não o impede de continuar a viver. Deambula um pouco desesperado pela cidade.
Maçãs – símbolo apodrecido da realidade em geral.
Mucho Maas – encontrámos lugar para ele. Insatisfeito por natureza, inovador, rebelde sem causa, não deixou de sucumbir às experiências com LSD do Dr. Hilarius, o psiquiatra da sua mulher. Ainda assim a acedeu a reconstituir para nós o seu programa, autêntico marco da rádio KCUF de Kinneret, Califórnia.
Port – Protagonista (?) do Sheltering Sky [O Céu que Nos Protege], do Paul Bowles.
Pinóquio – afinal era um mau menino. Ao contrário da versão da Disney, mata o Grilo Falante à pancada.
Struwwelpeter – histórias para crianças de deliciar o coração. Por exemplo, um menino que não quer comer a sopa, curiosamente de nome Kaspar, morre ao fim de cinco dias. Há ainda a história de um rapaz que chucha no dedo até que surge um alfaiate com uma tesoura gigante que lhe corta o dedo. Ou uma rapariga que gostava de brincar com fósforos e que morre queimada. Enfim, as lições a retirar são claras: se erras, ou morres, ou ficas sem uma parte do corpo.
Yvonne – nunca conseguimos compreendê-la verdadeiramente.

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