24 Agosto 2010
Por Joana Craveiro
“Um senhor com a mão de lado
as pessoas arranjam o cabelo quando chegam
põem os óculos na cabeça,
tentam parecer como que saídas de um filme;
na travessa das damas, música latino americana
de repente cuba irrompe em Évora e eu sem saber porquê;
as pessoas que chegam com sacos, que desaparecem
ao virar da esquina, antes mesmo de
eu levantar os olhos do caderno
– a lavandaria antiga, escrever sobre ela, mas o quê? –
as ruas desertas de pessoas e não poder
escrever sobre o corpo porque não há corpo –
só o meu” (do diário do dia #1)
A nossa residência é um trabalho no futuro chamado Chegadas. Como o nome indica, é sobre o acto de chegar. A residência é sobre o corpo quando chega. O festival pediu-nos que fosse sobre o corpo local.
Hoje compreendemos que LOCAL é um sítio pequeno onde nos perdemos porque não encontrámos quase ninguém que se inscrevesse na categoria. CORPO é outra problemática porque nos implica a nós e ao outro, e descobrimos nas nossas derivas uma cidade em partes abandonada.
Amanhã prosseguimos as derivas com novas coordenadas emprestadas uns dos outros, ainda à procura do LOCAL, ainda na demanda do CORPO.
“Sentada na Praça do Giraldo pergunto-me o
que significa o LOCAL do corpo local, porque estes
corpos me parecem tudo menos locais, falam línguas
estrangeiras, tocam na estátua sem pudor
e com ironia, e ninguém parece chegar a esta praça,
todos parecem de passagem para algum lado,
tirando uns que especificamente acabam de
chegar (estes sim)
para especificamente colocarem as mãos na fonte e dizer
está tão boa” (do diário do dia #1)
Mas porquê isto das chegadas, e onde foram inventar essa do corpo e afinal de contas, porque é que vocês vêm para aqui?
1. Porque nos lembrámos de construir um projecto sobre esse tema. Queremos investigar isso a fundo. De partir já falámos e falámos. E agora, por uma vez, ao contrário do costume.
2. O corpo quando chega não fomos nós que inventámos. Nós só estamos a responder.
3. Porque gostamos de vir. Permitem-nos?
Esta residência tem como único objectivo pesquisar, reflectir, procurar e derivar.
Faremos uma apresentação dos materiais reunidos e algumas das nossas reflexões. Entretanto, damos passeios solitários entre as 9h30 e as 12h30 de cada dia nesta cidade branca – e chamamos a essas incursões Derivas. Elas são o esqueleto de tudo isto. Com elas, construímos coisas durante a tarde, que mais tarde ainda serão já não coisas mas terão nome, estarão em frente a alguém, estarão presentes.
J.
https://scamquestra.com/24-bekapy-sohranenie-informacii-dlya-sledstviya-32.html