{"id":3695,"date":"2012-02-09T21:42:51","date_gmt":"2012-02-09T21:42:51","guid":{"rendered":"http:\/\/teatrodovestido.org\/?p=3695"},"modified":"2015-04-26T22:24:46","modified_gmt":"2015-04-26T21:24:46","slug":"activismo-ou-o-acto-de-agir-sobre-a-realidade-para-a-transformar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/teatrodovestido.org\/blog\/?p=3695","title":{"rendered":"Activismo, ou o acto de agir sobre a realidade para a transformar."},"content":{"rendered":"<p>Para o bi\u00e9nio de 2011-12, o Teatro do Vestido estabeleceu como tema geral o <strong>Activismo, ou o acto de agir sobre a realidade para a transformar.<\/strong> Consciente do momento crucial que o pa\u00eds atravessa, apelidado pela generalidade das pessoas como \u201ccrise\u201d, o Teatro do Vestido, n\u00e3o querendo negar a realidade dos factos nem utilizar estrat\u00e9gias escapistas, prefere n\u00e3o obstante, ater-se no caracter chin\u00eas para \u201ccrise\u201d que \u00e9 \u201coportunidade\u201d. Por isso chamamos a este momento um momento crucial. Empenhados que estamos em construir um teatro que activamente fale sobre a realidade, \u00e0 realidade, um teatro dito pol\u00edtico naquilo que enuncia como seus vectores de pesquisa \u2013 uma rela\u00e7\u00e3o activa com a realidade do presente e as suas perplexidades e m\u00faltiplas perspectivas \u2013 desenvolveremos ao longo dos pr\u00f3ximos dois anos uma programa\u00e7\u00e3o consonante com estes pressupostos, e que aposta mais do que nunca numa forma\u00e7\u00e3o consistente de p\u00fablicos, atrav\u00e9s de um servi\u00e7o educativo directamente relacionado com cada uma das cria\u00e7\u00f5es, bem como de ac\u00e7\u00f5es complementares de partilha dos nossos processos de trabalho. Estamos tamb\u00e9m empenhados numa maior abertura \u00e0 nossa comunidade envolvente, nomeadamente com a exist\u00eancia do espa\u00e7o f\u00edsico da companhia, que se situa no Cais do Sodr\u00e9.<\/p>\n<p>\u00c9 nossa convic\u00e7\u00e3o de que este \u00e9 o tempo certo. Certo no sentido em que \u00e9 o tempo em que vivemos e o tempo em que vivemos \u00e9 sempre o certo: para alcan\u00e7ar qualquer coisa, para transformar qualquer coisa. Porque acreditamos que os valores do humanismo se devem impor aos do capital e das trocas meramente monet\u00e1rias. Porque acreditamos neste tempo (como j\u00e1 dissemos), neste mundo, e no nosso papel nele. Porque acreditamos no teatro e no contributo disso. Porque n\u00e3o consideramos que o que fazemos \u00e9 sup\u00e9rfluo. Porque n\u00e3o acreditamos no discurso que pretende julgar o que \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 teatro, o discurso da aus\u00eancia de dramaturgia em Portugal, o discurso dos subs\u00eddio-dependentes, o discurso absurdo de quem n\u00e3o faz a m\u00ednima ideia do que fazemos realmente todos os dias e alimenta fantasias (porque s\u00e3o fantasias) do tempo em que os artistas viviam em \u00e1guas-furtadas num bairro do centro de Paris e morriam de tuberculose (o que de si era tamb\u00e9m j\u00e1 ent\u00e3o uma fantasia). Porque, enfim, n\u00f3s ainda estamos vivos, estamos aqui, a fazer coisas, ainda a fazer coisas.<\/p>\n<p>Mais do que numa rede econ\u00f3mica \u2013 a cujos limites e fal\u00eancias todos estamos a assistir e a experienciar \u2013 propomos aqui a cria\u00e7\u00e3o de uma rede essencialmente solid\u00e1ria. E \u00e9 enquanto companhia de teatro que o fazemos, pois esse \u00e9 o contributo que podemos prestar \u00e0 comunidade \u2013 um contributo que deriva directamente daquilo que somos e que fazemos.<\/p>\n<p>\u00ab\u2026At\u00e9 poder\u00edamos sonhar com uma comunidade de sonhadores que se juntassem para sonhar o que vem a\u00ed.\u00bb (John D. Caputo)<\/p>\n<p><strong>Projectos 1\u00ba semestre 2012:<\/strong><\/p>\n<p>Trope\u00e7ar: (Digress\u00e3o) Centro Cultural de Cascais, Teatro Viriato, Centro Cultural de Vila Flor, Espa\u00e7o do Tempo<br \/>\n(espect\u00e1culo encomendado e co-produzido pelo CCB\/F\u00e1brica das Artes)<\/p>\n<p>Em Trope\u00e7ar misturamos as nossas mem\u00f3rias com as apropria\u00e7\u00f5es que fomos fazendo das crian\u00e7as que observ\u00e1mos, recuperamos perguntas que ainda hoje nos inquietam sem tentarmos dar-lhes resposta (ainda), falamos de jantares de natal, de viagens de carro, de quando mudamos de pele (e d\u00f3i um pouco), do absurdo de algumas hist\u00f3rias que nos contavam, de quando pens\u00e1vamos ser invenc\u00edveis e da descoberta de n\u00e3o o sermos, de acidentes e percal\u00e7os, de dificuldades, da parede que se atravessa \u00e0 nossa frente quando menos esperamos, e da coragem de finalmente a atravessar.<\/p>\n<p>Trope\u00e7ar pretende ser mais sobre aquilo que as crian\u00e7as nos dizem e menos sobre o que n\u00f3s lhes dizemos a elas.<\/p>\n<p><strong>Zona de Acolhimento<\/strong><\/p>\n<p>abrir a nossa casa para acolher os sem casa que quiserem fazer do nosso espa\u00e7o o espa\u00e7o de apresenta\u00e7\u00e3o dos seus projectos. Zona de Acolhimento \u00e9 um projecto semanal (em semanas pr\u00e9 definidas ao longo do ano) e cuja curadoria est\u00e1 a cargo da equipa TdV. Convidamos todos a construir esta comunidade de ideias, partilha, projectos.<\/p>\n<p>Zona da Comunidade<\/p>\n<p>Dias espec\u00edficos em que o TdV abre o seu espa\u00e7o \u00e0 comunidade envolvente \u2013 do Cais do Sodr\u00e9 &#8211; pretendendo estimular rela\u00e7\u00f5es de proximidade prol\u00edferas e em que a companhia desempenhe um papel proactivo e positivo na zona em que est\u00e1 inserida. Neste dia, convidamos a comunidade envolvente a expressar-se no nosso espa\u00e7o, a falar dos seus produtos, dos seus trabalhos, das suas quest\u00f5es \u2013 uma comunidade que se v\u00e1 tornando menos estranha e mais empenhada e partilhada. Numa zona da cidade em r\u00e1pida transforma\u00e7\u00e3o e alguma descaracteriza\u00e7\u00e3o, esta Zona pretende registar e relembrar o que j\u00e1 vai passando, bem como o que se vai instalando e que \u00e9, tamb\u00e9m, comunidade.<\/p>\n<p><strong>Esta \u00e9 a Minha Cidade e Eu Quero Viver Nela \u2013 Edi\u00e7\u00e3o Porto<\/strong><\/p>\n<p>Originalmente concebido como um projecto de colabora\u00e7\u00e3o para intervir sobre espa\u00e7os de Lisboa, onde o Teatro do Vestido est\u00e1 sedeado, o projecto Esta \u00e9 a Minha Cidade e eu Quero Viver Nela j\u00e1 contou com tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es, em espa\u00e7os t\u00e3o diversos quanto o Largo de Santo Antoninho, o n\u00ba 49 da Rua da Barroca (espa\u00e7o da ZDB), e o Internacional Design Hotel. Em cada uma das edi\u00e7\u00f5es, um membro do Teatro do Vestido convidou um criador exterior \u00e0 companhia e, num espa\u00e7o de duas semanas intensivas, o trabalho foi criado a partir de um lugar, de um tema ou de uma quest\u00e3o suscitada pela cidade.<br \/>\nPara a edi\u00e7\u00e3o do Porto, e contando com a co-produ\u00e7\u00e3o do Teatro Nacional de S\u00e3o Jo\u00e3o, o Teatro do Vestido prop\u00f4s-se descobrir uma cidade que lhe \u00e9, de certa forma, estrangeira, pelos olhos dos que a ela pertencem, ou pertenceram, ou se encontram no processo de vir a pertencer. Conduzidos pelos olhos deles, as mem\u00f3rias deles, as perguntas deles, lan\u00e7amo-nos como cegos numa cidade nova para podermos vir a desejar viver nela tamb\u00e9m.<br \/>\nEsta \u00e9 a minha cidade e eu quero viver nela (edi\u00e7\u00e3o especial Porto) \u00e9 uma colabora\u00e7\u00e3o entre a equipa do Teatro do Vestido e criadores oriundos da cidade do Porto ou que nela habitam.<\/p>\n<p><strong>Monstro &#8211; Projecto de cria\u00e7\u00e3o a partir da ideia de \u201cCalamidade\u201d<\/strong><\/p>\n<p>De onde vem este t\u00edtulo?<br \/>\nDe uma carta que um de n\u00f3s escreveu a outro, era uma esp\u00e9cie de carta sobre o estado da na\u00e7\u00e3o (do mundo?), como se o outro fosse um alien\u00edgena ou assim, como se o outro andasse de abalada mas nem sequer no estrangeiro, noutro planeta. E dizia assim:<\/p>\n<p>\u201cCALAMIDADE \u00c9 O NOME DADO A ESTE MONSTRO que mata o desejo e a possibilidade de conseguir construir<br \/>\nCALAMIDADE \u00c9 O FIM DO COMBATE DOS COWBOYS CONTRA OS FEDERAIS EM QUE OS FEDERAIS DIZEM O SEGUINTE AO OUVIDO DO PRESIDENTE:<br \/>\n&#8211; Senhor Presidente, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 cowboys, as suas carca\u00e7as est\u00e3o estendidas ao longo das avenidas, estradas e vias p\u00fablicas. Os p\u00e1ssaros alimentam-se assim h\u00e1 duas semanas.<br \/>\n&#8211; O pre\u00e7o das ra\u00e7\u00f5es desceu, senhor presidente, mas n\u00e3o fa\u00e7amos disso grande alarido.<br \/>\n&#8211; J\u00e1 podemos arrumar o pa\u00eds, senhor, a um canto, depois tratamos dele quando tivermos tempo e for a altura certa, a altura certa senhor.<br \/>\nCALAMIDADE ser\u00e1 n\u00e3o apenas os abusos de poder, as viola\u00e7\u00f5es dos direitos e dos corpos humanos mas tamb\u00e9m o come\u00e7o da coisa m\u00e1 humana, o desistir perante o poder pequeno, desistir perante o grande poder, o roubo da vontade e a ced\u00eancia da mesma por quest\u00f5es hier\u00e1rquicas e medo do nunca-melhor<br \/>\nCALAMIDADE \u00e9 a observa\u00e7\u00e3o n\u00e3o-participante na com\u00e9dia divina<br \/>\nLOGO T\u00c2NIA, O NOME DISTO QUE ANDAMOS A VIVER N\u00c3O \u00c9 OUTRO, \u00c9 CALAMIDADE<br \/>\na destrui\u00e7\u00e3o do valor humano em todas as suas intensidades diferentes, do poucochinho \u00e0 satura\u00e7\u00e3o total.\u201d<\/p>\n<p>E ficou Monstro. Porque queremos reflectir neste trabalho acerca daquilo que nos come por dentro e \u00e0s coisas \u00e0 nossa volta, e que queremos que pare, que pare, que pare.<br \/>\nConvid\u00e1mos Maur\u00edcio Paroni de Castro, encenador brasileiro, de ascend\u00eancia italiana, residente em S\u00e3o Paulo, mas com vasto trabalho realizado na Europa, para criar connosco este objecto cefal\u00f3pode, que ter\u00e1 carreira em S\u00e3o Paulo e em Lisboa.<br \/>\nTrabalhando a partir de uma metodologia que apelidou de \u201cderiva\u201d e da qual o Teatro do Vestido j\u00e1 em 2003 se apropriou e adaptou como parte do seu modus operandi de constru\u00e7\u00e3o criativa, Maur\u00edcio Paroni de Castro descreve a sua forma de trabalhar com as seguintes palavras: \u201cO exerc\u00edcio da Deriva foi criado para trabalharmos praticamente com o conceito de cartografia emocional. O exerc\u00edcio \u00e9, na pr\u00e1tica, criar situa\u00e7\u00f5es reais, em locais p\u00fablicos, nas quais o ator realiza um deslocamento a partir de premissas previamente determinadas e com um tempo de dura\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m estipulado. O exerc\u00edcio gera um fluxo de a\u00e7\u00f5es que \u00e9 determinado pelo percurso feito. Ao termino, s\u00e3o feitas as considera\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es acerca do mesmo, para compreender e contextualizar a trajet\u00f3ria emocional. Esse exerc\u00edcio foi o ponto fundamental desta pesquisa, onde os atores s\u00e3o o suporte da dramaturgia, e n\u00e3o o contr\u00e1rio, como costuma-se fazer tradicionalmente. Os ganhos dessa invers\u00e3o de percurso s\u00e3o de v\u00e1rios n\u00edveis: conceitual, criativo e interpretativo.\u201d A \u201cderiva\u201d ser\u00e1, portanto, a base metodol\u00f3gica da constru\u00e7\u00e3o de Monstro, e existe \u00e0 partida um grande entendimento art\u00edstico entre o Teatro do Vestido e o encenador. Para este projecto estamos tamb\u00e9m a tentar viabilizar a participa\u00e7\u00e3o de Janine Rosati, actriz que integra a companhia Manufactura Suspeita, de Paroni de Castro, e S\u00e9rgio Romano, actor e criador italiano, que trabalhou durante um largo per\u00edodo de tempo com Paroni de Castro.<\/p>\n<p>Direc\u00e7\u00e3o: Maur\u00edcio Paroni de Castro.<br \/>\nCo-cria\u00e7\u00e3o\/ Interpreta\u00e7\u00e3o: Joana Craveiro, T\u00e2nia Guerreiro<br \/>\nEspa\u00e7o C\u00e9nico, Imagens, Ru\u00eddo: Gon\u00e7alo Alegria<br \/>\nColabora\u00e7\u00e3o: S\u00e9rgio Romano, Janine Rosati.<\/p>\n<p>O projecto ser\u00e1 criado de raiz em S\u00e3o Paulo, onde ter\u00e1 o seu primeiro conjunto de apresenta\u00e7\u00f5es, e ter\u00e1 posteriormente a segunda fase do projecto em Outubro\/Novembro de 2012 em Lisboa. Este \u00e9 um projecto pensado para espa\u00e7os n\u00e3o convencionais da cidade, decorrendo em avenidas, becos, jardins e entradas de pr\u00e9dios de determinadas zonas de S\u00e3o Paulo. Ser\u00e1 tamb\u00e9m utilizado o espa\u00e7o de um antigo clube de boxe.<\/p>\n<p><strong>Manifesto-me #2<\/strong><br \/>\nA premissa deste projecto \u00e9 a mesma que assistiu a Esta \u00e9 a Minha Cidade e eu Quero Viver Nela: um elemento da companhia convida um criador exterior para colaborar durante duas semanas, e o resultado \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o ef\u00e9mera que documenta esse encontro e, no caso espec\u00edfico deste projecto, a reflex\u00e3o e manifesta\u00e7\u00e3o activa sobre algo que se tenha muita urg\u00eancia de dizer hoje, aqui onde estamos.<br \/>\n\u00c9 condi\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria que as apresenta\u00e7\u00f5es tenham lugar em espa\u00e7os diversificados e n\u00e3o-convencionais da cidade. Ainda h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o com a cidade neste projecto, apesar de a palavra \u201ccidade\u201d ter desaparecido do t\u00edtulo.<br \/>\nComo objecto integrante da cria\u00e7\u00e3o, far-se-\u00e1 uma publica\u00e7\u00e3o, cuja forma, formato, extens\u00e3o depender\u00e1 do encontro entre os dois criadores e da din\u00e2mica de manifesta\u00e7\u00f5es que forem criadas.<\/p>\n<p>A primeira edi\u00e7\u00e3o deste projecto decorreu em Dezembro de 2011: T\u00e2nia Guerreiro convidou Maria Gil e juntas criaram \u201cRua da Esperan\u00e7a.\u201d<br \/>\nEm 2012 as 4 edi\u00e7\u00f5es de \u201cManifesto-me\u201d ser\u00e3o apresentadas no CITEMOR, Festival de Teatro de Montemor o Novo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o bi\u00e9nio de 2011-12, o Teatro do Vestido estabeleceu como tema geral o Activismo, ou o acto de agir sobre a realidade para a transformar. 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