{"id":4639,"date":"2012-03-14T18:12:06","date_gmt":"2012-03-14T18:12:06","guid":{"rendered":"http:\/\/teatrodovestido.org\/?page_id=4639"},"modified":"2012-03-14T18:12:06","modified_gmt":"2012-03-14T18:12:06","slug":"texto","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/teatrodovestido.org\/blog\/?page_id=4639","title":{"rendered":"Texto"},"content":{"rendered":"<h1>Porque na Noite<\/h1>\n<p>Estreia\u00a0<strong>Teatro da Comuna, Lisboa<\/strong>\u00a0| 17 a 21 e 24 a 28 Junho 2009<br \/>\nDesenvolvido em colabora\u00e7\u00e3o, com direc\u00e7\u00e3o de Joana Craveiro e interpreta\u00e7\u00e3o de In\u00eas Rosado, Rosinda Costa e T\u00e2nia Guerreiro.<\/p>\n<p>Por Joana Craveiro<\/p>\n<p><strong>Fragmentos a prop\u00f3sito da pe\u00e7a cujo t\u00edtulo termina em C\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>1. \u201cEsta \u00e9 uma fotogra?a minha\u201d<br \/>\nEsta \u00e9 a forma como eu me apresento quando quero que os outros me vejam como eu n\u00e3o sou, e como os apresento uns aos outros quando os sinto saturados de si pr\u00f3prios, e a forma como os largo ca\u00eddos a um canto da estrada no fim da noite, e a forma como canto aos berros o que j\u00e1 ningu\u00e9m ouve h\u00e1 muito tempo, ou como viro para baixo todas as fotografias da casa para que tu n\u00e3o vejas que eu j\u00e1 n\u00e3o sou assim.<\/p>\n<p>(eu era t\u00e3o mais bonita quando\u2026)<\/p>\n<p>2. \u201cAprendi a mentir aos quatro anos\u201d<br \/>\nIsto \u00e9 o que dizem sobre mim. Eu n\u00e3o subscrevo nenhuma das fic\u00e7\u00f5es feitas em torno de mim. N\u00e3o sei se j\u00e1 te disse, mas eu nunca gostei de ti. Foi por pena que eu\u2026<\/p>\n<p>Fiquei \u00e0 porta. Foi a\u00ed que eu fiquei sempre. Perdoa-me a minha cobardia.<\/p>\n<p>3. \u201cMal posso esperar pelo dia da minha pris\u00e3o\u201d<br \/>\nTenho uma ideia de liberdade que \u00e9 s\u00f3 minha. Ou pelo menos eu gosto de fantasiar com esse sentimento de autoria. Quando \u00e9 que foi a \u00faltima vez em que me senti assim livre? Foi quando descobri que n\u00e3o tinha que ir a lado nenhum. Que podia simplesmente ficar aqui.<\/p>\n<p>S\u00f3 faltas aqui tu, mas estou a tentar libertar-me desse<br \/>\nfacto.<br \/>\nDa falta que me fazes.<br \/>\nDe te ter envenenado com o que pensei ser Betadine, mas<br \/>\nque n\u00e3o era.<\/p>\n<p>4. A partir de \u2013 ou como as larg\u00e1mos no caminho<br \/>\nEste projecto teve como base uma distribui\u00e7\u00e3o de poetisas, um pouco ao jeito das tarefas que deixamos uns para os outros, ou das perguntas em folhas de leitura, ou das estruturas interminavelmente complexas com as quais tentamos dotar os nossos materiais fragmentados de\u00a0uma ordem. Somos obcecados com essa procura. De uma ordem que n\u00e3o \u00e9 necessariamente um sentido, mas que \u00e9 uma partitura na qual depois, ent\u00e3o, tudo acontece. E chamamos-lhe dramaturgia porque n\u00e3o temos outra palavra. N\u00e3o nos preocupa se est\u00e1 ou n\u00e3o correcta a utiliza\u00e7\u00e3o desta palavra de acordo com os par\u00e2metros de outros. \u00c9<br \/>\ncomo a express\u00e3o \u201ca partir\u201d de. O que quer exactamente\u00a0dizer isso?<br \/>\nVoltemos ao in\u00edcio: elas tinham a sua poetisa e levaram-na para casa. Depois traziam-na todos os dias. Vinham sempre com um coment\u00e1rio sobre isto ou aquilo \u2013 uma frase, um fragmento, um epis\u00f3dio da sua biografia. Quando chegavam tinham um quarto para cada uma. Dentro do quarto havia tarefas para fazerem. E depois elas fechavam-se nele e abriam a porta quando estavam prontas a mostrar, a jogar, a apresentar.<br \/>\nN\u00e3o havia nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o narrativa (nunca h\u00e1), e tamb\u00e9m n\u00e3o havia preocupa\u00e7\u00e3o de chegar a um determinado s\u00edtio. Era realmente uma viagem \u00e0s cegas. O que quer dizer \u201ca partir de\u201d? N\u00e3o nos inquiet\u00e1vamos com isso. Queira o que queira dizer, vamos antes por aqui, pousa a\u00ed o livro que n\u00e3o vais precisar dele, conta-me antes aquela hist\u00f3ria da tua fotografia, aquele epis\u00f3dio de que me falaste no outro dia, sim aquele, mas sem fazer teatro, faz um jogo, ensina o jogo \u00e0s outras, agora vamos trocar e v\u00e3o habitar o quarto uma das outras, v\u00e3o revisitar os seus materiais,<br \/>\nMas afinal, quando \u00e9 que vais acabar com essa pornografia autobiogr\u00e1fica?<br \/>\nQuando parares de me pedir para falar sobre mim.<\/p>\n<p>\u201cM\u00fasia, solta os diabos, Margarete, escreve sobre isto\u2026\u201d<br \/>\nE tu, Elizabete?<br \/>\nPreferia que n\u00e3o me chamasses assim.<br \/>\nOk.<\/p>\n<p>5. Depois delas<br \/>\nAlgures entre os quartos da casa ainda por habitar, da sala de ensaio nas Oficinas do Convento, e do n\u00ba 122 da Rua da Esperan\u00e7a, larg\u00e1mo-las, intactas, \u00e0s poetisas, e fic\u00e1mos n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porque na Noite Estreia\u00a0Teatro da Comuna, Lisboa\u00a0| 17 a 21 e 24 a 28 Junho 2009 Desenvolvido em colabora\u00e7\u00e3o, com direc\u00e7\u00e3o de Joana Craveiro e interpreta\u00e7\u00e3o de In\u00eas Rosado, Rosinda Costa e T\u00e2nia Guerreiro. 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