{"id":2382,"date":"2010-12-06T13:46:39","date_gmt":"2010-12-06T13:46:39","guid":{"rendered":"http:\/\/teatrodovestido.org\/?page_id=2382"},"modified":"2016-12-19T10:34:07","modified_gmt":"2016-12-19T10:34:07","slug":"nomadas","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/teatrodovestido.org\/blog\/?page_id=2382","title":{"rendered":"N\u00f3madas"},"content":{"rendered":"<p>Estreia <strong>Neg\u00f3cioZDB, Lisboa<\/strong> | 9 a 12 e 16 a 19 Dezembro 2009<br \/>\nDesenvolvido em colabora\u00e7\u00e3o, com direc\u00e7\u00e3o de Joana Craveiro e interpreta\u00e7\u00e3o de Gon\u00e7alo Alegria, Milton Lopes e Pedro Caeiro.<\/p>\n<p>Por Joana Craveiro<\/p>\n<p><em>Eles s\u00e3o tr\u00eas homens (quase sempre).<\/em><br \/>\n<em>Eles n\u00e3o t\u00eam casa.<\/em><br \/>\n<em>Ou melhor, t\u00eam, mas n\u00e3o se chama assim.<\/em><br \/>\n<em>Eles partem das obras, n\u00e3o, dos autores, n\u00e3o, das obras, n\u00e3o, de nada disso. Olha, n\u00e3o sei. Mas rapidamente v\u00e3o para longe, muito longe dali.<\/em><br \/>\n<em>Eles ainda est\u00e3o naquele s\u00edtio de n\u00e3o saber como se faz um espect\u00e1culo a partir de. Mas talvez eles descubram tudo j\u00e1 desta vez.<\/em><br \/>\n<em>Eles s\u00e3o desorganizados, por vezes violentos, eles fazem teatro e nada daquilo \u00e9 sincero.<\/em><br \/>\n<em>Eles se calhar nem leram os livros at\u00e9 ao fim. <\/em><br \/>\n<em>Eles s\u00e3o os tr\u00eas t\u00e3o diferentes, mas algures, este \u00e9 o mundo deles e n\u00f3s somos s\u00f3 os convidados.<\/em><\/p>\n<p>Depois de <em>Porque na Noite Terrena Sou Mais Fiel que Um C\u00e3o<\/em>, a pe\u00e7a delas, o Teatro do Vestido cria <em>N\u00f3mada<\/em>s, a pe\u00e7a deles, a partir dos universos de Thomas Pynchon, Malcolm Lowry e Paul Bowles.<\/p>\n<p>O que quer dizer exactamente a partir de? Ainda n\u00e3o sabemos. Mas talvez possamos descrever um pouco do nosso processo: cada um deles tem a seu cargo o universo de um autor. Portanto, leu, pesquisou, estudou, encontrou liga\u00e7\u00f5es, outras refer\u00eancias, trouxe apontamentos para uma dramaturgia. Era como tra\u00e7ar um caminho. Uma esp\u00e9cie de mapa. Daqui vou para ali. Encontrei esta ramifica\u00e7\u00e3o. Vou abrir esta porta, fechar aquela.Depois come\u00e7\u00e1mos a ver como \u00e9 que o material dialogava entre si.<br \/>\nDepois j\u00e1 est\u00e1vamos a fazer tudo seguido.<br \/>\nDepois encontr\u00e1vamos novas liga\u00e7\u00f5es.<br \/>\nDepois ainda nos pergunt\u00e1vamos se aquilo fazia algum sentido.<br \/>\nDepois descobr\u00edamos que n\u00e3o era de sentido que se tratava, mas sim de uma outra coisa, de prefer\u00eancia no plural.<\/p>\n<p><!--more-->E nisto tudo a cumplicidade da ZDB, que nos abriu primeiro o centro de documenta\u00e7\u00e3o, e depois a galeria, e agora o Neg\u00f3cio. De cada vez que alargava o espa\u00e7o, alargavam as nossas quest\u00f5es. Apesar de sabermos que \u00e9 mesmo assim, dava um certo frio na barriga. C\u00f3licas, ou l\u00e1 o que \u00e9.<\/p>\n<p>Em <em>N\u00f3madas <\/em>h\u00e1 rela\u00e7\u00f5es que n\u00e3o funcionam, comunica\u00e7\u00f5es que s\u00e3o dificultadas pelo ru\u00eddo, grandes expectativas e fracas concretiza\u00e7\u00f5es, teatros que se ensaiam, toda uma contra-regra complicada, h\u00e1 muitas coisas que s\u00e3o verdade e outras que s\u00f3 acontecem nos livros, h\u00e1 pessoas a mais na vida deles, e h\u00e1 uma fraca capacidade para gerir tudo isso.<br \/>\nComo j\u00e1 dissemos antes, <em>N\u00f3madas <\/em>n\u00e3o tem mesmo nada a ver com viagens, apesar do t\u00edtulo, dos autores, e de uma certa tend\u00eancia nossa para falarmos sobre isso.<\/p>\n<p>Pequeno gloss\u00e1rio:<br \/>\n<strong>Alasca <\/strong>\u2013 refer\u00eancia \u00f3bvia a uma m\u00fasica dos Velvet Underground, \u201cStephanie Says.\u201d [\u2018the people all call her Alaska\u2026\u2019]<br \/>\n<strong>Carpenters<\/strong> \u2013 banda pop dos anos 60. A vocalista teve um final tr\u00e1gico e uma rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o assumida com um homem que afinal a amava, que deu origem a um filho ileg\u00edtimo. Ningu\u00e9m sabe onde p\u00e1ra a crian\u00e7a. Estes assuntos n\u00e3o foram tratados em nenhuma das suas can\u00e7\u00f5es.<br \/>\n<strong>Debra Winger<\/strong> \u2013<strong> <\/strong>mais robusta que<strong> <\/strong>John Malkovitch, ela consegue n\u00e3o apanhar mal\u00e1ria, mas torna-se escrava sexual de um Tuaregue. Nesse momento o filme torna-se uma esp\u00e9cie de videoclip piroso dos anos 80.<br \/>\nEntropia \u2013 a teoria da informa\u00e7\u00e3o diz que, quanto menos informa\u00e7\u00f5essobre um sistema, maior ser\u00e1 sua entropia. Isso remete ao facto de as equa\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas para a entropia usarem m\u00e9todos probabil\u00edsticos para serem deduzidas. Sendo assim, quanto maior o n\u00famero de arranjos poss\u00edveis, maior ser\u00e1 a entropia.<br \/>\n<strong>Fred Astaire<\/strong> \u2013 come\u00e7ou a dan\u00e7ar com a irm\u00e3. \u00c9 tudo o que sabemos.<br \/>\n<strong>Dr. Vigil<\/strong> \u2013 t\u00e3o alco\u00f3lico quanto Firmin, consegue disfar\u00e7ar melhor. Encontrou-se hoje com Laruelle antes da sua partida definitiva do M\u00e9xico. Afinal Vigil tamb\u00e9m trata doen\u00e7as ven\u00e9reas, como vimos a perceber no final quando o an\u00e3o d\u00e1 aquele cart\u00e3o a Firmin.<br \/>\n<strong> <\/strong><strong>Gaspar, ou Kasper<\/strong> \u2013 n\u00e3o aprendeu ainda o mais b\u00e1sico: defender-se na selva humana. Antes disso tem ainda que aprender a andar e a aceitar a fraca generosidade dos que o rodeiam.<br \/>\n<strong> <\/strong><strong>Geoffrey Firmin<\/strong> \u2013 sentado a beber numa cantina mexicana em Quauhnahuac, Firmin, o c\u00f4nsul, ainda n\u00e3o se deitou desde ontem. Na festa, o Dr. Vigil tinha metido conversa com ele dizendo, \u201cInteresso-me muito pelos loucos.\u201d<br \/>\n<strong>Ilya Kabakov<\/strong> \u2013 pai de um de n\u00f3s.<br \/>\n<strong>Jacques Laruelle<\/strong> \u2013 est\u00e1 de partida. Claro que ainda gosta dela, mas isso n\u00e3o o impede de continuar a viver. Deambula um pouco desesperado pela cidade.<br \/>\n<strong>Ma\u00e7\u00e3s<\/strong> \u2013 s\u00edmbolo apodrecido da realidade em geral.<br \/>\n<strong>Mucho Maas<\/strong> \u2013 encontr\u00e1mos lugar para ele. Insatisfeito por natureza, inovador, rebelde sem causa, n\u00e3o deixou de sucumbir \u00e0s experi\u00eancias com LSD do Dr. Hilarius, o psiquiatra da sua mulher. Ainda assim a acedeu a reconstituir para n\u00f3s o seu programa, aut\u00eantico marco da r\u00e1dio KCUF de Kinneret, Calif\u00f3rnia.<br \/>\n<strong>Port<\/strong> \u2013 Protagonista (?) do <em>Sheltering Sky [O C\u00e9u que Nos Protege]<\/em>, do Paul Bowles.<br \/>\n<strong> <\/strong><strong>Pin\u00f3quio<\/strong> \u2013 afinal era um mau menino. Ao contr\u00e1rio da vers\u00e3o da Disney, mata o Grilo Falante \u00e0 pancada.<br \/>\n<strong>Struwwelpeter<\/strong> \u2013 hist\u00f3rias para crian\u00e7as de deliciar o cora\u00e7\u00e3o. Por exemplo, um menino que n\u00e3o quer comer a sopa, curiosamente de nome Kaspar, morre ao fim de cinco dias. H\u00e1 ainda a hist\u00f3ria de um rapaz que chucha no dedo at\u00e9 que surge um alfaiate com uma tesoura gigante que lhe corta o dedo. Ou uma rapariga que gostava de brincar com f\u00f3sforos e que morre queimada. Enfim, as li\u00e7\u00f5es a retirar s\u00e3o claras: se erras, ou morres, ou ficas sem uma parte do corpo.<br \/>\n<strong>Yvonne<\/strong> \u2013 nunca conseguimos compreend\u00ea-la verdadeiramente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estreia Neg\u00f3cioZDB, Lisboa | 9 a 12 e 16 a 19 Dezembro 2009 Desenvolvido em colabora\u00e7\u00e3o, com direc\u00e7\u00e3o de Joana Craveiro e interpreta\u00e7\u00e3o de Gon\u00e7alo Alegria, Milton Lopes e Pedro Caeiro. 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