Texto

Estreia Festival Citemor, Montemor-o-Velho | 11 de Agosto
Desenvolvido em Colaboração com Gonçalo Alegria, Joana Craveiro eTânia Guerreiro.

O que é que acontece quando habitas um país sem memória? O que é que acontece quando perdes o rasto ao passado e dás por ti fechado no presente sem respostas para o que te explora, corrompe, viola os teus direitos fundamentais como cidadão, como habitante de um país? O que é que acontece quando ninguém te quer explicar como chegaste até aqui porque assim legitima o teu presente e hipoteca o teu futuro e não tem que te dizer porquê nem como, porque as coisas são mesmo assim e o caminho é acreditar ‘que esta é a única solução’ e que ‘nunca vai ficar melhor’, e que, enfim, a solução é aguentar, aguentar em silêncio e acreditar que estamos todos a contribuir para o grande esforço colectivo de resgatar um país à beira da miséria (ou já mergulhado nela)? O que é que acontece quando te dás conta que fazes parte da maioria silenciosa, que tens costumes brandos, que a tua voz a pedir justiça afinal é um queixume, e que, pronto, mesmo que levantes os braços para fazeres alguma coisa, já não vais a tempo para o não sei quando, que era quando isto deveria ter acontecido e poderíamos ter alterado o rumo da história?

O país onde nascemos está a saque. A nós dizem-nos que emigremos, e que o desemprego pode ser um momento de grande criatividade, e dizem-nos mais coisas do domínio do absurdo que nem vale a pena reproduzir. E nós, fechados no presente eterno, sem memória do passado, dizemos: para o diabo com a vossa condescendência, o vosso risco ao lado no cabelo penteadinho, do alto do qual nos dizem que é inevitável. Para o diabo com a delapidação da nossa dignidade, dia a dia, como quem nos faz pagar uma promessa da qual não temos memória de ter feito.

Este é o momento para fazer teatro sobre isto. A ‘isto’ chamámos calamidade, e ao conjunto de calamidades que nos trouxeram até aqui, chamámos monstro.

Este projecto tem três fases: 1.Calamidade, em Lisboa e Montemor-o-Velho; 2. Hecatombe, em São Paulo; e 3. Apocalipse, em Lisboa. Vai ocupar-nos o resto do ano de 2012. Porque precisamos de tempo para perceber, e tempo para falar sobre isto. Porque a lama já nos começa a chegar aos olhos e dentro em pouco já não há maneira de continuar a discernir.

Consideramos este espectáculo como o nosso treino para não perder essa faculdade essencial: o discernimento.

Comments are closed.