Apresentação

Em 2006 tínhamos espaço. Era uma ala num pavilhão no hospital Júlio de matos, e começou a tomar forma a ideia de um projecto pedagógico. Era Verão e eram 12 participantes e chamou-se ZONA 0. Esse foi o início. Ali explorámos de forma condensada, em cinco dias, o que chamámos ‘a memória pessoal e a utilização de si em cena.’ Abordámos do ponto de vista emocional, o Gonçalo tocava ininterruptamente, havia olhos vendados e listas de coisas, havia objectos pessoais e fundações de países. Era uma deriva a partir da ‘Construção de um Mundo Novo’, que tinha sido um workshop que tínhamos dado em São Paulo no ano anterior. O que estava em jogo era a identidade, a propriedade e a geografia física e emocional.

No fim desta ZONA escrevemos um relatório que nunca foi publicado, talvez tenhamos publicado num canto do site da altura. Um excerto dizia assim: “Trabalhar com a memória é sempre trabalhar com uma zona de reinvenções e descobertas, às vezes de mentiras e de transformações do que realmente aconteceu…”

Depois, estabelecemos três ZONAS: #1, #2, #3, que seriam sempre diferentes. Começámos por trabalhar Tennesse Williams; penso que estávamos ainda nessa altura ligados a esta ideia de um ‘curso de interpretação.’ Escrevemos um texto que era uma espécie de manifesto sobre isso. Falava da autonomia e responsabilização do aluno (leia-se, actor) e da função do professor de interpretação. Era uma época de mudança nas nossas vidas a vários níveis e era aí que uma parte da nossa pesquisa pedagógica se situava na altura.

Depois com a ZONA #2, a primeira, que foi a partir do Rei Lear, o projecto pedagógico do Teatro do Vestido começou talvez a tomar a sua forma essencial. Começámos a transpor mais claramente alguns dos nosso métodos e ética de trabalho para ali. O texto era agora mais um pretexto do que um meio objectivo para trabalhar a interpretação. Os alunos eram criadores e começavam a encontrar a sua voz no meio de um sistema de tarefas que lhes propúnhamos. A apresentação do Rei Lear, num duracional de diversas horas em que a promessa era a chegada do Rei de França e um banquete (só este último se efectivava), marcou o início de formas de apresentação diversificadas em termos de tempo, formato, conteúdos, que ficaria a marca do ZONAS até ao fim (até hoje, de facto).

A ZONA #3 seria durante algum tempo denominada ‘Contemporâneos e Fragmentados.’ Até termos descoberto que todas as Zonas eram de certo modo isso. Mas, mesmo se os termos fossem idênticos, nenhuma ZONA o foi porque os que nela participaram foram determinantes para torná-las a todas únicas. Procurámos também diversificar os pontos de partida a cada novo ano: de contos de autores realistas americanos até a imagens de Andrei Tarkovski, das Três Irmãs aos lugares, imagens, palavras várias, espaços, a ideia de família, correspondências, os livros da memória descritos por Henning Mankell em I die but the memory lives on.

O ZONAS tornou-se gradualmente num espaço – mesmo quando já fora do pavilhão 27, vivemos da generosidade das companhias que gentilmente nos emprestaram salas e cantos nos seus também às vezes pequenos espaços – ainda assim, foi/é um espaço. Um laboratório de coisas. Onde o nosso papel é o de organizar um sistema de tarefas, derivas (ver glossário) para a construção de um património (ver glossário) e a descoberta de uma voz ou de caminhos possíveis para pensarmos o estar aqui (que é sempre aquilo que nós acreditamos que o teatro faz, acima de qualquer outra coisa).

É um espaço que é uma ideia de uma ética de criação. Onde falhar é obrigatório. Aprender a falhar e aprender a ver os outros falhar é obrigatório. Onde fazer diferente do que até aqui é obrigatório. Onde dar oportunidade a nós próprios é obrigatório.

Onde a regra para abordar uma tarefa é: faz aquilo que entenderes dela. E não me expliques o que vais fazer. Faz.

https://scamquestra.com/18-informaciya-ob-afere-iz-zagranicy-29.html

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