Biénio 2013/2014

País Possível

Para este biénio, o Teatro do Vestido definiu como tema um título furtado a Ruy Belo, “País Possível”. Quisemos com este furto inverter o que o poeta escreveu precisamente na introdução a este livro que, segundo ele, reflectia “o mal estar de um homem que, ao longo da sua vida, tem pagado caro o preço por haver nascido em Portugal.” Pegamos na palavra ‘possível’ associada a ‘país’ e vemos nela isso mesmo: possibilidades. Ou seja, esperança. Ou seja, acção. Ou seja, não o país que temos mas o que queremos. É nesta esfera que situamos a nossa programação para este biénio, propondo criações que reflictam sobre o estado das coisas, mas com um olhar virado para a transformação, mais do que a resignação.
Temos vindo a desenvolver um teatro atento à realidade do presente, mas também estabelecendo relações com o passado, procurando a genealogia dos males que nos afligem. Isto mesmo iniciámos com a trilogia Monstro, que pertence ao biénio anterior, mas que surge novamente neste biénio em digressão e apresentação das três partes no festival CITEMOR e em Curitiba. Mencionamos esse projecto porque ele é para nós fundador de uma forma de teatro político no contexto da nossa companhia, que queremos continuar ao longo dos próximos dois anos sob o tema “País Possível”. Seguindo as premissas fundadoras da companhia de escrita original de textos dramáticos, bem como de pesquisa de processos de trabalho diversificados, do desenvolvimento de uma criação em colaboração, e de parcerias dinâmicas com entidades de acolhimento, residência e co-produção que nos permitam desenvolver o nosso trabalho de pesquisa, culminando tudo na tentativa de sedimentação de uma comunidade que nos parece fundamental para connosco reflectir sobre os temas que lançamos sobre o palco e a forma como o fazemos – este biénio é uma continuação do anterior, denominado “Activismo ou o acto de agir sobre a realidade para a transformar” numa coerência que prezamos e consideramos importante.

O programa de actividades que propomos centra-se na criação de obras que têm por base textos originais e o trabalho criativo em colaboração, bem como a criação com base em temas que se relacionam directamente com a realidade, o quotidiano, o que nos parecem ser as preocupações prementes dos tempos em que vivemos, tentando motivar uma reflexão ampla com auxílio de ferramentas históricas, antropológicas, sociológicas.
Ao mesmo tempo, construímos um programa que tenta inserir todas as iniciativas no âmbito do título do biénio, procurando uma coerência temática que reflicta uma perspectiva de pensamento e acção sobre a realidade. São espectáculos sobre Portugal aqui e agora, sobre a Europa aqui e agora. Utilizando materiais que decorrem de uma pesquisa pessoal aliada a uma pesquisa histórica e sociológica, cruzando as diferentes camadas e contradições do que nos torna humanos, os textos produzidos pelo Teatro do Vestido têm uma preocupação constante por um particular que ressoe num universal, do confronto da pequena com a grande memória, segundo expressões de Christian Boltanski.

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