Texto

Porque na Noite

Estreia Teatro da Comuna, Lisboa | 17 a 21 e 24 a 28 Junho 2009
Desenvolvido em colaboração, com direcção de Joana Craveiro e interpretação de Inês Rosado, Rosinda Costa e Tânia Guerreiro.

Por Joana Craveiro

Fragmentos a propósito da peça cujo título termina em Cão

1. “Esta é uma fotogra?a minha”
Esta é a forma como eu me apresento quando quero que os outros me vejam como eu não sou, e como os apresento uns aos outros quando os sinto saturados de si próprios, e a forma como os largo caídos a um canto da estrada no fim da noite, e a forma como canto aos berros o que já ninguém ouve há muito tempo, ou como viro para baixo todas as fotografias da casa para que tu não vejas que eu já não sou assim.

(eu era tão mais bonita quando…)

2. “Aprendi a mentir aos quatro anos”
Isto é o que dizem sobre mim. Eu não subscrevo nenhuma das ficções feitas em torno de mim. Não sei se já te disse, mas eu nunca gostei de ti. Foi por pena que eu…

Fiquei à porta. Foi aí que eu fiquei sempre. Perdoa-me a minha cobardia.

3. “Mal posso esperar pelo dia da minha prisão”
Tenho uma ideia de liberdade que é só minha. Ou pelo menos eu gosto de fantasiar com esse sentimento de autoria. Quando é que foi a última vez em que me senti assim livre? Foi quando descobri que não tinha que ir a lado nenhum. Que podia simplesmente ficar aqui.

Só faltas aqui tu, mas estou a tentar libertar-me desse
facto.
Da falta que me fazes.
De te ter envenenado com o que pensei ser Betadine, mas
que não era.

4. A partir de – ou como as largámos no caminho
Este projecto teve como base uma distribuição de poetisas, um pouco ao jeito das tarefas que deixamos uns para os outros, ou das perguntas em folhas de leitura, ou das estruturas interminavelmente complexas com as quais tentamos dotar os nossos materiais fragmentados de uma ordem. Somos obcecados com essa procura. De uma ordem que não é necessariamente um sentido, mas que é uma partitura na qual depois, então, tudo acontece. E chamamos-lhe dramaturgia porque não temos outra palavra. Não nos preocupa se está ou não correcta a utilização desta palavra de acordo com os parâmetros de outros. É
como a expressão “a partir” de. O que quer exactamente dizer isso?
Voltemos ao início: elas tinham a sua poetisa e levaram-na para casa. Depois traziam-na todos os dias. Vinham sempre com um comentário sobre isto ou aquilo – uma frase, um fragmento, um episódio da sua biografia. Quando chegavam tinham um quarto para cada uma. Dentro do quarto havia tarefas para fazerem. E depois elas fechavam-se nele e abriam a porta quando estavam prontas a mostrar, a jogar, a apresentar.
Não havia nenhuma preocupação narrativa (nunca há), e também não havia preocupação de chegar a um determinado sítio. Era realmente uma viagem às cegas. O que quer dizer “a partir de”? Não nos inquietávamos com isso. Queira o que queira dizer, vamos antes por aqui, pousa aí o livro que não vais precisar dele, conta-me antes aquela história da tua fotografia, aquele episódio de que me falaste no outro dia, sim aquele, mas sem fazer teatro, faz um jogo, ensina o jogo às outras, agora vamos trocar e vão habitar o quarto uma das outras, vão revisitar os seus materiais,
Mas afinal, quando é que vais acabar com essa pornografia autobiográfica?
Quando parares de me pedir para falar sobre mim.

“Músia, solta os diabos, Margarete, escreve sobre isto…”
E tu, Elizabete?
Preferia que não me chamasses assim.
Ok.

5. Depois delas
Algures entre os quartos da casa ainda por habitar, da sala de ensaio nas Oficinas do Convento, e do nº 122 da Rua da Esperança, largámo-las, intactas, às poetisas, e ficámos nós.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>