Chegadas

Chegadas – peça de teatro documental sobre actos de chegar e algumas das implicações desse verbo
Estreia Liberdade Provisória, Av. Da Liberdade, Lisboa  | 24 a 27 de Fevereiro de 2011
Desenvolvio em colaboração com direcção de Joana Craveiro e interpretação de Inês Rosado, Joana Craveiro e Rosinda Costa
Aquele sítio onde paramos vindos de não sei onde. Aquele não lugar. Aquele sorriso que trazíamos, expectantes. Aquele olhar inquieto. Aquela coisa de que nos esquecemos no banco de trás. Aquela pessoa que deixámos para trás. A forma de entrar, de andar, de sair, de procurar com olhos, de tropeçar.


E agora nós éramos pessoas que sabiam perfeitamente estar à altura de qualquer situação.  E agora nós éramos pessoas que não precisavam que as viessem buscar. E agora nós não tínhamos esta sensação de orfandade, e sabíamos o que fazer numa gare vazia, ou à chegada a um aeroporto, ou mesmo à porta de casa naqueles dias em que não encontramos as chaves e tudo vai mal.
 
Chegadas é um projecto que parte da ideia de chegar, nas suas mais variadas formas. Gostamos de pensar nele como um projecto de teatro documental ou documentário, que começou connosco sentados em diversos locais de chegada a olhar para tudo de olhos espantados e a tirar notas freneticamente em pequenos cadernos discretos que cabiam no bolso de uma gabardine.
 
Chegadas partiu da ideia de uma de nós (Ela contou-me várias histórias acerca de um tempo em que havia um vidro e conseguíamos ver as pessoas antes que elas chegassem de facto. Ela disse-me que de cada vez que o pai dela partia, eles de despediam como se fosse para nunca mais se verem.)

Chegadas é uma peça, que apesar se já ter sido apresentada em Agosto na Estação Ferroviária de Évora, no âmbito do Festival Escrita na Paisagem, ainda está em construção. Agora numa casa, num terceiro andar na Avenida da Liberdade, em Lisboa. (como é que se encaixa uma peça assim como esta numa casa? Da mesma forma que se encaixa tudo o resto a toda a hora onde já parece não haver mais espaço disponível, respondemos nós)

Em Chegadas recuperamos movimentos e textos que são como que um ensaio geral de actos quotidianos, mil vezes repetidos e vividos, mas que ninguém repara que estão lá. Todos estão demasiado ocupados em vivê-los. Desde há uns anos a esta parte, o Teatro do Vestido tem-se dedicado sistematicamente a uma observação das coisas mínimas do quotidiano com vista a inscrevê-las em objectos performativos que reflictam uma relação íntima com a realidade e transmitam o nosso olhar perplexo (apaixonado?) perante ela.
“Cheguei ontem.

Eles apertam-se ao andar na rua e é difícil saber se o fazem porque têm frio ou porque precisam do conforto da carne humana. Olho para as suas casas de pedra que se estendem a perder de vista, ao longo das margens de cada rio e penso na minha casa e em como nunca mais vou poder voltar. Porque virei costas. E conheço as regras de quando se vira costas a uma coisa: NÃO VOLTARÁS.” (in texto dela quando chega)

 

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