Manifesto

O projecto que assiste à fundação do Teatro do Vestido tem como premissas fundamentais, em primeiro lugar, a escrita de textos originais, embora não excluindo a hipótese de trabalhar textos de outros autores, sempre numa procura de inéditos e construções dramatúrgicas particulares, que reflictam o desejo de inovação e procura de novas linguagens  estéticas no fazer da arte teatral. Por outro lado, o Teatro do Vestido assume-se como uma companhia comprometida com uma forma ética de fazer teatro e de se posicionar na arte em geral, e na sua relação com as comunidades. A gestão interna da própria companhia parte desse pressuposto ético, que se traduz na atribuição e reconhecimento de um amplo espaço de criação a todos os intervenientes no processo de trabalho, sendo a autoria do resultado final do trabalho, e espectáculo, partilhado por todos eles. A direcção do Teatro do Vestido compromete-se, para tal, a que esses espaços de trabalho e criação sejam amplamente, e sempre, respeitados. O Teatro do Vestido constitui-se como Companhia, porque nos parece ser a estrutura de funcionamento mais indicada às nossa procuras, que dependerão sempre dum trabalho contínuo de pesquisa, só possível, quanto a nós, com a uma equipa fixa de criadores empenhados na criação comum de objectos performativos.

O Teatro do Vestido assume-se como um teatro de pesquisa, nas várias áreas que estão representadas na sua equipa técnico-artística, reservando-se a procura de metodologias e processos de trabalho  específicos para cada peça, que sigam esta linha laboratorial, e salvaguardando sempre a importância  do processo de trabalho para a construção de novas orientações e sentidos a adicionar ao projecto inicial. Queremos com isto afirmar, que uma encenação não se faz, quanto a nós, no papel, e a priori, que ela é portanto fruto de tudo o que há ainda para descobrir e construir em conjunto.

O Teatro do Vestido, de acordo com as pessoas que o constituem, trabalha com base nas seguintes áreas de trabalho artístico individualizado e criativo: encenação, interpretação, música, cenografia, iluminação e imagem (vídeo). Ao nível da produção, estratégia que vem sendo desenvolvida pelo Teatro do Vestido, visa a convocação, a par de subsídios estatais, de parcerias com mecenas, nomeadamente entidades privadas, que tenham, ou não, uma tradição de apoio a projectos culturais. É nossa convicção de que o apoio ao desenvolvimento de projectos culturais, pode ser uma forma de intervenção sustentada e continuada num património que cremos comum, usufruível e partilhável. Um património cultural, muitas vezes não traduzível em termos monetários, mas bem mais vasto no seu alcance, mais precioso. Num mundo cada vez mais descaracterizado e com perda acelerada de referências, talvez mesmo só o património cultural fará, no fim, o balanço das perdas e dos ganhos. E convidará à reflexão, cada vez mais necessária, urgente.

O Teatro do Vestido acredita num público activo e participativo na construção de sentidos para o objecto teatral que lhe é fornecido. Reconhece, no entanto, as carências em termos de formação do público, fruto sem dúvida de carências a outros níveis, e sendo a cultura ainda considerada um produto dispensável, de luxo, só possível para alguns, mas não verdadeiramente necessária. Porque acreditamos na construção de um património cultural comum, que nos ajude na reflexão e no questionamento das realidades, e para o qual o teatro pode sem dúvida contribuir de forma decisiva, o Teatro do Vestido compromete-se a desenvolver um projecto pedagógico paralelo, que compreenda não só trabalho com crianças, mas também junto de comunidades carenciadas e de fora de Lisboa que, contudo, não se paute só pela digressão de espectáculos, mas envolva estágios e residências artísticas noutras comunidades. Que implique, portanto, desenvolver um trabalho contínuo e de permanência – essa é a medida que achamos justa para a tão desejada descentralização, e única forma que vemos de a pôr em prática.

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