Dia #2

13 Outubro 2009

Por Raimundo Cosme

Babel – Preparação
Ali estavam.
“Ali”. Nas margens de um aquário vagamente transparente. Lá dentro muito menos que água. Talvez um nada de água. Por isso preparavam-se.
“Estavam”. Eles, mergulhadores de tempo limitado. Sabiam que o que os esperava era tudo menos pesca. Tão pouco era mergulho. E era tudo o que sabiam.

Ao som do metrónomo-sem-corpo, olhavam-se. Tudo era profundamente marcado, ritualizado. sagrado até.
Tudo era tenso.

O metrónomo calava-se. Todos conheciam aquele silêncio. Tinham chegado o momento.
Estavam prontos.

Por ordem ascendente de idades respiraram fundo. Um de cada vez.
E pisando as húmidas margens de vidro saltaram corajosamente lá para dentro.

O que viam agora era, “como dizer?”, levemente perturbador.
O sítio onde estavam não era um aquário. E tal como suspeitavam não tinha água.

Primeira descoberta: aquele sítio era afinal uma caixa branca, mais ou menos quadrada, mais ou menos colada. E era esta a verdade.
O mais novo, primeiro a respirar fundo  e último a voltar a respirar, reparava agora que não se lembrava como andar.
Por sorte trazia na carteira um manual de bolso.
O Segundo teve menos sorte. Esqueceu-se de guardar a voz. E nem o megafone que ali o esperava o conseguiu ajudar.
O Terceiro, assustado, procurava nas paredes da caixa, desesperado, uma qualquer fissura por onde pudesse sair. Sem sucesso nega-se a ficar sozinho e por isso procura a voz do Segundo para que puderem conversar.

Eis a segunda descoberta: era dali que saiam os sons do metrónomo-sem-corpo. Mas se antes estavam protegidos, agora aquele som perturbava-os, obrigava-os a “dançar”.
Ao mesmo tempo, Primeiro, Segundo e Terceiro, batiam palmas, saltavam e faziam um barulho quase bonito com os pés. No início lento, depois muito lento, depois estranhamente rápido.

E agora a terceira descoberta: a dança acalma os mergulhadores. a prova é que mal pararam de “dançar” começaram imediatamente a falar.
Não falavam sobre qualquer coisa nem tão pouco sobre uma coisa qualquer.
Combinavam construir uma torre. uma torre que os levasse dali embora.

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