Dia #5

16 Outubro 2009

Por Raimundo Cosme

Conheciam-se há muito tempo. Poderia afirmar isso só pelo modo como se sentavam. Frente-a-frente.
Não conversavam. Falavam em simultâneo. “Coisas de homem” pensava eu.
Comecei a perceber como eram parecidos. Óculos. Entradas simétricas no alto da cabeça. Calças largas, Nunca fato. Bochechas desenvoltas que remexiam a face, esta de uma palidez levemente recortada pela fina e amarelada barba.

Comecei a perceber como eram diferentes. Um novo, outro ainda mais novo. Cores dominantes: num preto noutro vermelho. Sorriso grande e muito natural, sorriso fechado prevendo renite.
Mesmo assim pareciam conversar. Os dois ao mesmo tempo, é certo. Mas o que importa é falarmos.

Juntou-se a eles um terceiro. Vinha claramente com uma missão. Ao mostrar a garrafa de Rum entendi: a sua missão era ajudar a soltar a prosa. Com sorte em menos de nada chegariam à poesia.

Estranho trio. Pareciam-me cada vez mais diferentes. Cada vez mais indiferentes. Quanto mais falavam, menos havia para falar. “Coisas de Homem”, pensava eu. A Humanidade está eternamente condenada a isto. Ao esgotamento. Da linguagem. Da memória. Da vida.
As palavras acabavam pouco a pouco. Aquela conversa tornou-se inefável.
Preparam agora o tempo certo para saírem, um após o outro, na mesma direcção mas a passos diferentes.

Últimas palavras: “Boa Noite”. Cordialidade, sempre a cordialidade.

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