Dia #3

26 Agosto 2009

Por Rosinda Costa

No descampado demasiados carros para lá dentro parecer tudo tão deserto.

Este é um parque reservado a feiras e mercados diz, “Segunda e 3ª f de cada mês, 6ª f de ramos, dia 12 de Outubro das 16h do dia anterior às 19h do próprio dia.”

É aqui que os ciganos fazem nascer todo aquele dinheiro que trazem no bolso da frente da camisa.

Odeio dinheiro, podia ter ido comprar um chapéu com os 10 eur que gastei na minha consulta de merda. Chegas às urgências de um hospital e a primeira coisa que fazes é pagar, mesmo que só passes 10 minutos lá dentro.

No corpo local deste hospital, no balcão mulheres, nem sequer me sentei. Ele, o médico sentado, fez-me muitas perguntas. Ouviu-me por dentro e não disse nada, foi-se sentar outra vez. Eu de pé em frente via-o a escrever e pensava, porque é que ele não partilhou comigo o que achou do que ouviu dentro de mim?

De repente chega uma enfermeira acciona o microfone e diz:

“Acompanhante de Rosinda Leão diriga-se ao balcão mulheres, acompanhante de Rosinda Leão diriga-se ao balcão mulheres.”

Fiquei baralhada com aquilo, senti-me estrangeira nesse momento, estrangeira de mim própria, pois é sempre estranho ouvir ou ver alguém com mesmo nome que eu, geralmente são velhinhas as que carregam o meu nome, o que me faz sentir velha também ou se não, a lutar contra a minha própria extinção.

Quis espreitar pra ver quem era, como era, com certeza uma eborense genuína , pensei eu.

Mas ninguém veio…. niguém se mexeu. Apenas o médico estendeu a receita dizendo: um a seguir ao jantar.

Entrei no parque e avistei-os logo, os mais genuínos de todos os eborenses, os de boné, discontraídos, aos pares, distribuídos pelos bancos do jardim. Sentei-me também e senti-me um deles, senti-me parte da paisagem.

Atirei fora a minha obrigação criativa de investigadora performista que interpreta o que vê para me tornar eu própria no corpo local.

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