Eles Não Têm Casa

Residência Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo | 12 a 18 Outubro 2009
Apresentação Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo | 17 Outubro 2009
Residência de criação referente à 12º criação do Teatro do Vestido intitulada Nómadas, com direcção de Joana Craveiro e interpretação de Gonçalo Alegria, Milton Lopes e Pedro Caeiro.

Por Joana Craveiro

No seguimento das nossas pesquisas dramatúrgicas, seleccionámos como tema de criação para o ano de 2009 o trabalho a partir de alguns autores literários cujos universos nos permitem falar de questões para nós prementes: as relações humanas, a política e a ideologia, as fraquezas interiores, o amor, a utilização da autobiografia na procura de uma reflexão sobre o universal, o comum partilhado – e, como súmula, os actos de partir e de ficar.

O projecto divide-se em duas criações. Seleccionámos seis autores – três mulheres e três homens – que dividimos por três actrizes e três actores, respectivamente. Dois espectáculos diferentes percorridos pela inquietação de saber como transpor para a cena universos poéticos e literários de uma riqueza e vastidão incalculáveis. É proposto a cada um dos actores o trabalho sobre o universo específico de um dos autores, e a construção de um universo pessoal que seja a resposta a esse autor.
Num registo que oscila entre o ficcional e o autobiográfico, entre a narrativa e a teatralidade, o projecto Nómadas é o espelho invertido, masculino, do projecto Porque na Noite Terrena Sou Mais Fiel que um Cão, que o antecede. Um sem o outro para nós não faria sentido. Ao romantismo exacerbado que o título Porque na Noite Terrena Sou Mais Fiel que um Cão evoca, contrapomos a frieza do nomadismo, a ausência de compromisso que implica, e, de certa forma, e não por acaso, uma certa ausência de fidelidade.

Nesta residência de criação do Nómadas nas Oficinas do Convento, à semelhança do que tinhamos feito para Porque na Noite Terrena… chegamos com pouca coisa na bagagem. Nomeadamente, com os materiais criados ao longo de três semanas de laboratório na ZDB, em Lisboa. Fragmentos, perguntas, curiosidades. Foi pegando nessas pistas soltas que iniciámos o dia #1 desta residência.

Estamos de momento a fazer o material dialogar, colocando-o em simultâneo, sobrepondo-o também, de alguma forma operando mudanças sobre as fontes. Vamos continuar ao longo da semana a trabalhar para agarrar e aprofundar cada uma das pistas, construirmos uma possível primeira estrutura, e darmos os nós nalgumas pontas soltas.

A apresentação informal de materiais do Nómadas irá desenhar-se a partir do modelo que temos usado nestes laboratórios: um desfile de fragmentos de ideias e propostas, que procuram encontrar o seu sentido na acumulação e na dúvida. E esta é uma oportunidade de abrirmos as portas do nosso processo àqueles que desejem partilhar de um momento intermédio na criação do nosso projecto. Apesar da sensação de inacabado que estes momentos em progresso inevitavelmente convocam, sentimos que esta partilha pode ser importante para ambas as partes, e esperamos que as nossas pesquisas ressoem nos imaginários daqueles que, como nós, também por vezes não têm casa.

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