Chegadas

Residência Festival Escrita na Paisagem, Évora | 11 a 29 Agosto 2010
Apresentação Estação Ferroviária de Évora |28 Agosto 2010
Residência de criação referente à 14º criação do Teatro do Vestido intitulada Chegadas, com direcção de Joana Craveiro e interpretação de Inês Rosado e Rosinda Costa.

Por Joana Craveiro

Peça de teatro documental sobre actos de chegar e algumas das implicações desse verbo.

Aquele sítio onde paramos vindos de não sei onde. Aquele não lugar. Aquele sorriso que trazíamos, expectantes. Aquele olhar inquieto. Aquela coisa de que nos esquecemos no banco de trás. Aquela pessoa que deixámos para trás. A forma de entrar, de andar, de sair, de procurar com olhos, de tropeçar.

E agora nós éramos pessoas que sabíamos perfeitamente estar à altura de qualquer situação.  E agora nós éramos pessoas que não precisávamos que nos viessem buscar. E agora nós não tínhamos esta sensação de orfandade, e sabíamos o que fazer numa gare vazia.

I – E entretanto chega já uma mulher loura com um sorriso,  encontra-se com um homem que a espera sem grande intimidade e mais à frente com o seu pai. Enquanto conversa com o seu pai, abre a mala e quase a esvazia retirando três pacotes de cartão e dois cadernos que entrega ao homem, ficando apenas com uma muda de roupa na mala. Despede-se do homem e segue caminho com o seu pai.

R – Uma senhora numa mesa parecia só. Chega outra, sua amiga decerto. Pensei ainda bem, vão falar. A outra começa a fazer gestos que eu não percebo. Chega outro senhor, que também gesticula. São mudos, são todos mudos. Eu penso, que sorte a deles – estão protegidos pelo silêncio, a origem e o fim de tudo, do som e da palavra.

(dos diários de trabalho/ observação)

Chegadas é uma peça em construção que partiu da ideia de uma de nós (Ela contou-me várias histórias acerca de um tempo em que havia um vidro e conseguíamos ver as pessoas antes que elas chegassem de facto. Ela disse-me que de cada vez que o pai dela partia, eles de despediam como se fosse para nunca mais se verem.)

Há um ano atrás viemos a Évora preparar materiais sobre este tema. No contexto do Festival Escrita na Paisagem, que tem acolhido sistematicamente as nossas buscas dos últimos cinco anos. Chamava-se ‘O Corpo Quando Chega,’ porque andávamos à procura do corpo local nesse acto de chegar. Foram dias e dias em que fizemos percursos pela cidade de Évora em busca dessa ideia – de a compreender, sobretudo – o que era isso do corpo local e como o poderíamos investigar. A apresentação tornou-se numa reflexão acerca desse acto de documentação. Não temos a certeza de ter inteiramente compreendido isso do corpo local, ou de termos documentado as suas diferentes chegadas.

Este ano regressamos e damos por nós aqui, nesta gare fechada à circulação de comboios.  Com os cadernos cheios de anotações de outras gares, outros terminais de chegadas, e o olhar espantado dos etnógrafos perante o desconhecido ( o nosso olhar preferido).  Estamos em processo, em dúvida, em confusão. Como aquela sensação de estar prestes a embarcar e a única certeza ser a dos números do bilhete, que nos indicam uma porta, uma gare, um cais, e depois um lugar. E durante o tempo em que dura a viagem não é preciso saber mais nada.

Em Chegadas recuperamos movimentos e textos que são como que um ensaio geral de actos quotidianos, mil vezes repetidos e vividos, mas que ninguém repara que estão lá. Todos estão demasiado ocupados em vivê-los. Desde há uns anos a esta parte, o Teatro do Vestido tem-se dedicado sistematicamente a uma observação das coisas mínimas do quotidiano com vista a inscrevê-las em objectos performativos que reflictam uma relação íntima com a realidade e transmitam o nosso olhar perplexo (apaixonado?) perante ela.

J – Afinal não estou a chegar pela primeira vez. Estou a regressar. Não se nota que sei tudo sobre este lugar?

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