Eles Não têm Casa
Residência referente ao projecto Nómadas
Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo – Outubro 2009
Criadores: Joana Craveiro, Pedro Caeiro, Gonçalo Alegria, MIlton Lopes
[Dia #6 Apresentação Informal]








***
Eles Não têm Casa
Residência referente ao projecto Nómadas
Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo – Outubro 2009
[Dia #5 Raimundo Cosme - Assistente de Encenação]
Conheciam-se há muito tempo. Poderia afirmar isso só pelo modo como se sentavam. Frente-a-frente.
Não conversavam. Falavam em simultâneo. “Coisas de homem” pensava eu.
Comecei a perceber como eram parecidos. Óculos. Entradas simétricas no alto da cabeça. Calças largas, Nunca fato. Bochechas desenvoltas que remexiam a face, esta de uma palidez levemente recortada pela fina e amarelada barba.
Comecei a perceber como eram diferentes. Um novo, outro ainda mais novo. Cores dominantes: num preto noutro vermelho. Sorriso grande e muito natural, sorriso fechado prevendo renite.
Mesmo assim pareciam conversar. Os dois ao mesmo tempo, é certo. Mas o que importa é falarmos.
Juntou-se a eles um terceiro. Vinha claramente com uma missão. Ao mostrar a garrafa de Rum entendi: a sua missão era ajudar a soltar a prosa. Com sorte em menos de nada chegariam à poesia.
Estranho trio. Pareciam-me cada vez mais diferentes. Cada vez mais indiferentes. Quanto mais falavam, menos havia para falar. “Coisas de Homem”, pensava eu. A Humanidade está eternamente condenada a isto. Ao esgotamento. Da linguagem. Da memória. Da vida.
As palavras acabavam pouco a pouco. Aquela conversa tornou-se inefável.
Preparam agora o tempo certo para saírem, um após o outro, na mesma direcção mas a passos diferentes.
Últimas palavras: “Boa Noite”. Cordialidade, sempre a cordialidade.
***
Eles Não têm Casa
Residência referente ao projecto Nómadas
Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo – Outubro 2009
[Dia #4 Raimundo Cosme - Assistente de Encenação]
- Alma Redentora em Cama-de-Pregos -
Resolveu rezar pela sua alma. Preferiu rezar deitado, pois acreditava que, com aquela inclinação, a sua oração ascenderia mais depressa, e sabia que Deus odiava perder tempo.
Rezava de olhos abertos. Queria enfrentar o castigo mas teria de olhá-Lo de frente para poder negociar.
Não estava preocupado.
Tinha tudo planeado na sua cabeça.
Se o seu castigo fosse uma doença, proporia uma leve mas duradoura constipação. Se fosse a miséria pensara em trocá-la por metade do seu cérebro. Se, em último caso, Deus planeasse puní-lo com a morte, pedíria para que o transformasse num insecto, ideia original de Kafka.
Começava agora a preocupar-se.
Sabia que nunca deveria ter desafiado as leis divinas.
Cometeu todos os pecados. Perturbou as almas mais sérias com o seu egoísmo. Provocou grandes guerras por convencer todos contando as maiores mentiras como se de verdades se tratassem. Fazia o possível para perturbar as orações dos fiéis, perturbando-os nas igrejas, com as suas entradas e saídas dramáticas. Por forma a alimentar antigos ódios falava continuamente do passado aos tristes e contava as suas histórias aos menos tristes. Embalsamava os mortos e punha-os nos museus para que as suas famílias os chorassem para sempre.
Mas não o fazia por mal. Tão pouco por maldade. Ele tinha medo. Tinha medo da luz. Tinha medo do sol. Tinha medo da água. Tinha medo de ter medo.
Podia ter sido feliz nesta vida mas este não era o tempo. Esta não era a aura.
Continuou deitado durante 3 longos anos.
Deus nunca chegou.
Talvez fosse esse o seu castigo.
***
Eles Não têm Casa
Residência referente ao projecto Nómadas
Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo – Outubro 2009
[Dia #3 Raimundo Cosme - Assistente de Encenação]
- Estação Central, ou a Parábola da Indecisão -
O Homem-que-Viaja-de-Noite parece ter adormecido certa madrugada.
Digo “parece” pois, na verdade, está apenas imóvel. Não a dormir. Não quieto. Não parado. Tão pouco imobilizado. Imóvel era o nome do seu estado.
Escondia ou apoiava a cara no meio de um saco. Apoiava.
À sua volta o Encantador-de-Baratas e o Homem-Que-Não-Podia-Ouvir gritavam.
Falavam alto, ainda que consigo próprios, sobre si próprios.
O Homem-Que-Viaja-De-Noite quebrava agora a sua imobilidade, mexendo ou antes, tremexendo os lábios.
Procurava contar alguma coisa. parecia que inventava uma nova Língua.
Talvez procurasse fundar um novo país.
“Eu sou uma rã!” gritava o Encantador-de-Baratas, enquanto tentava escolher dois caminhos.
Ao amanhecer compreendi. Os três estavam no meio no caminho, exactamente no meio de uma estrada. O meio da estrada que divide as duas cidades do país de Lago.
Imagem e Reflexo. Por serem “Invisíveis” estas cidades são um contrário e não um espelho.
O que acontece em imagem é antonimado em Reflexo.
Nenhum dos três consegue escolher para onde ir. Por isso decidem ficar exactamente ali.
O Homem-Que-Não-Podia-Ouvir era o que mais sofria com esta indecisão. À muito tempo atrás tinha desistido de ouvir porque se fartára de todas as obliquidades que diziam sobre o mundo que pisava. Para que, por opiniões alheias não deixa-se de o amar, desistiu de ouvir, pegando fogo ao bicho que mora no nosso ouvido e que conta à nossa cabeça o que se passa no mundo (talvez esse bicho se chame “Tímpano”).
Agora decidira mudar de terra mas não sabia qual delas escolher. Sentia-se tentado a arrancar os olhos para poder ser livre de escolher sem olhar.
É então que o Encantador-de-Baratas se decide. Escolhe o Reflexo, onde vai lutar pela máxima infelicidade. desta forma terá de si sempre uma Imagem feliz.
E como o seu maior medo sofrer sozinho, usa a sua flauta para “encantar” os outros dois, que, seguindo a hipnotisante canção se aprisionam em Reflexo.
***
Eles Não têm Casa
Residência referente ao projecto Nómadas
Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo – Outubro 2009
[Dia #2 Raimundo Cosme - Assistente de Encenação]
- Babel – Preparação -
Ali estavam.
“Ali”. Nas margens de um aquário vagamente transparente. Lá dentro muito menos que água. Talvez um nada de água. Por isso preparavam-se.
“Estavam”. Eles, mergulhadores de tempo limitado. Sabiam que o que os esperava era tudo menos pesca. Tão pouco era mergulho. E era tudo o que sabiam.
Ao som do metrónomo-sem-corpo, olhavam-se. Tudo era profundamente marcado, ritualizado. sagrado até.
Tudo era tenso.
O metrónomo calava-se. Todos conheciam aquele silêncio. Tinham chegado o momento.
Estavam prontos.
Por ordem ascendente de idades respiraram fundo. Um de cada vez.
E pisando as húmidas margens de vidro saltaram corajosamente lá para dentro.
O que viam agora era, “como dizer?”, levemente perturbador.
O sítio onde estavam não era um aquário. E tal como suspeitavam não tinha água.
Primeira descoberta: aquele sítio era afinal uma caixa branca, mais ou menos quadrada, mais ou menos colada. E era esta a verdade.
O mais novo, primeiro a respirar fundo e último a voltar a respirar, reparava agora que não se lembrava como andar.
Por sorte trazia na carteira um manual de bolso.
O Segundo teve menos sorte. Esqueceu-se de guardar a voz. E nem o megafone que ali o esperava o conseguiu ajudar.
O Terceiro, assustado, procurava nas paredes da caixa, desesperado, uma qualquer fissura por onde pudesse sair. Sem sucesso nega-se a ficar sozinho e por isso procura a voz do Segundo para que puderem conversar.
Eis a segunda descoberta: era dali que saiam os sons do metrónomo-sem-corpo. Mas se antes estavam protegidos, agora aquele som perturbava-os, obrigava-os a “dançar”.
Ao mesmo tempo, Primeiro, Segundo e Terceiro, batiam palmas, saltavam e faziam um barulho quase bonito com os pés. No início lento, depois muito lento, depois estranhamente rápido.
E agora a terceira descoberta: a dança acalma os mergulhadores. a prova é que mal pararam de “dançar” começaram imediatamente a falar.
Não falavam sobre qualquer coisa nem tão pouco sobre uma coisa qualquer.
Combinavam construir uma torre. uma torre que os levasse dali embora.
***
Eles Não têm Casa
Residência referente ao projecto Nómadas
Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo – Outubro 2009
[Dia #1 Raimundo Cosme - Assistente de Encenação]
- [2x; (x=3)] -
Espectáculo em doze cenas sem actos.
A um qualquer não-lugar chegaram os três, ou antes, os seis.
Ponto comum: todos Homens (descritos pelo “H grande” anterior ao acordo ortográfico).
O que poderia parecer uma simples escolha revela-se ao longo de todo objecto, (na verdade um simples trajecto) um facto peculiar, promissor, por vezes desconfortável, sem ser nunca irritante ou irreal.
Revelava-se apenas como uma simpática coincidência.
Mal a claridade surge lá fora, por entre as grades das janelas frias de linho, os três, ou seis, entram.
Silêncio.
O palco do não-lugar, chão corrido fabricado pelas falsas quarteladas, abre-se, parte-se três, ou antes, seis vezes.
Se da primeira aberturas parece sair o próprio mar enrolado numa tempestade, de outra pressente-se um estranho esboço feito de uma licorosa tinta vermelha que insiste em jorrar da mão de um deles. Chamemos, portanto, a esse ser sem nome “Pintor”.
Ao que provocou a tempestade saída das entranhas da terra chamemos “Navegador”, visto parecer controlar perfeitamente cada sussurro das ondas.
Nomeemos por fim aquele de onde nasce o sol. “Poeta”. É ele que comanda a luz. É ele que pinta de azul as ondas. É ele que voa enquanto dança.
Pacheco diria, ao vê-lo que “era o nome que melhor lhe ficava”.
Não nos deixemos enganar se por agora nos parecem três.
Tal como sempre dissemos, eles são, na verdade, seis.
Aprendamos matemática: 1+1+1=6.
Errou Almada ao afirmar que 1+1=1. pelo menos errou aqui, nesta não-terra, neste não-lugar.
Cada armadura aprisiona exactamente dois seres.
Aprendamos mais matemática: dois não se divide. Pelo menos aqui.
————————————————————————————————————-
O Corpo quando Chega
Residência referente ao projecto Chegadas a estrear em 2010
Festival Escrita na Paisagem, Ex-Celeiros da EPAC, Évora – 29 Agosto 2009
Criadores: Joana Craveiro, Pedro Caeiro, Gonçalo Alegria, Simon Frankel, Rosinda Costa, Tânia Guerreiro
[Dia #6 Apresentação Informal]















***
O Corpo quando Chega
Residência referente ao projecto Chegadas a estrear em 2010
Festival Escrita na Paisagem, Évora – Agosto 2009
[Dia #5 Pedro Caeiro]

“Senhora cigana que mexe nas moedas”

“O meu caminho do meio da Rosinda”

“A minha incursao em evora como eborense genuino”
***
O Corpo quando Chega
Residência referente ao projecto Chegadas a estrear em 2010
Festival Escrita na Paisagem, Évora – Agosto 2009
[Dia #4 Simon Frankel]
“Vivemos no universo da sobreexposição e da obscenidade, saturado de clichês, onde a banalização e a descartabilidade das coisas e imagens foi levada ao extremo” (PEIXOTO, Nelson Brissac 1988, 367).
O olhar estrangeiro sobre as coisas. Ser de fora, ver de fora, estar fora, vá para fora… cá dentro.
Observar o “outro” e registar.
Hoje foi sobre procurar, resistir, organizar o pensamento, estruturar e mostrar. Foi perceber o tempo e confiar. Apresentar uma palestra sobre a banalização e rapidez das imagens, o olhar exterior, o estrangeiro, o preconceito, o nacionalismo, a interpretação condicionada da realidade.
“Ser estrangeiro não é apenas habitar um outro país e falar uma outra língua que não seja a de origem. Ser estrangeiro é a própria condição humana. Somos todos estrangeiros para nós mesmos (…)
O estrangeiro pode ser concebido como o outro que habita um outro país, outras leis, que fala uma outra língua. Aquele representado por hábitos culturais e sociais diferenciados, evocando estranhamento a quem se aproxima para conhecer e/ou partilhar. (Ivo de Andrade Lima Filho)
Compreender o percurso pessoal dentro do colectivo.
Tenho o meu lugar.
Perceber que tudo o que vejo é paisagem.
S.
***
O Corpo quando Chega
Residência referente ao projecto Chegadas a estrear em 2010
Festival Escrita na Paisagem, Évora – Agosto 2009
[Dia #3 Rosinda Costa]
No descampado demasiados carros para lá dentro parecer tudo tão deserto.
Este é um parque reservado a feiras e mercados diz, “Segunda e 3ª f de cada mês, 6ª f de ramos, dia 12 de Outubro das 16h do dia anterior às 19h do próprio dia.”
É aqui que os ciganos fazem nascer todo aquele dinheiro que trazem no bolso da frente da camisa.
Odeio dinheiro, podia ter ido comprar um chapéu com os 10 eur que gastei na minha consulta de merda. Chegas às urgências de um hospital e a primeira coisa que fazes é pagar, mesmo que só passes 10 minutos lá dentro.
No corpo local deste hospital, no balcão mulheres, nem sequer me sentei. Ele, o médico sentado, fez-me muitas perguntas. Ouviu-me por dentro e não disse nada, foi-se sentar outra vez. Eu de pé em frente via-o a escrever e pensava, porque é que ele não partilhou comigo o que achou do que ouviu dentro de mim?
De repente chega uma enfermeira acciona o microfone e diz:
“Acompanhante de Rosinda Leão diriga-se ao balcão mulheres, acompanhante de Rosinda Leão diriga-se ao balcão mulheres.”
Fiquei baralhada com aquilo, senti-me estrangeira nesse momento, estrangeira de mim própria, pois é sempre estranho ouvir ou ver alguém com mesmo nome que eu, geralmente são velhinhas as que carregam o meu nome, o que me faz sentir velha também ou se não, a lutar contra a minha própria extinção.
Quis espreitar pra ver quem era, como era, com certeza uma eborense genuína , pensei eu.
Mas ninguém veio…. niguém se mexeu. Apenas o médico estendeu a receita dizendo: um a seguir ao jantar.
Entrei no parque e avistei-os logo, os mais genuínos de todos os eborenses, os de boné, discontraídos, aos pares, distribuídos pelos bancos do jardim. Sentei-me também e senti-me um deles, senti-me parte da paisagem.
Atirei fora a minha obrigação criativa de investigadora performista que interpreta o que vê para me tornar eu própria no corpo local.
***
O Corpo quando Chega
Residência referente ao projecto Chegadas a estrear em 2010
Festival Escrita na Paisagem, Évora – Agosto 2009
[Dia #2 Gonçalo Alegria]
O fenómeno é:
Nada acontece. Nada se faz. Acontece o nada. Converge tudo para o nada.
Explico:
Dia a dia comum. Atenção focada no ecrã. O ecrã vem à cidade. Converge tudo para ver o ecrã ao vivo.
E eu escolhi o turismo.


***
O Corpo quando Chega
Residência referente ao projecto Chegadas a estrear em 2010
Festival Escrita na Paisagem, Évora – Agosto 2009
[Dia #1 Joana Craveiro]
“Um senhor com a mão de lado
as pessoas arranjam o cabelo quando chegam
põem os óculos na cabeça,
tentam parecer como que saídas de um filme;
na travessa das damas, música latino americana
de repente cuba irrompe em Évora e eu sem saber porquê;
as pessoas que chegam com sacos, que desaparecem
ao virar da esquina, antes mesmo de
eu levantar os olhos do caderno
- a lavandaria antiga, escrever sobre ela, mas o quê? -
as ruas desertas de pessoas e não poder
escrever sobre o corpo porque não há corpo –
só o meu” (do diário do dia #1)
A nossa residência é um trabalho no futuro chamado Chegadas. Como o nome indica, é sobre o acto de chegar. A residência é sobre o corpo quando chega. O festival pediu-nos que fosse sobre o corpo local.
Hoje compreendemos que LOCAL é um sítio pequeno onde nos perdemos porque não encontrámos quase ninguém que se inscrevesse na categoria. CORPO é outra problemática porque nos implica a nós e ao outro, e descobrimos nas nossas derivas uma cidade em partes abandonada.
Amanhã prosseguimos as derivas com novas coordenadas emprestadas uns dos outros, ainda à procura do LOCAL, ainda na demanda do CORPO.
“Sentada na Praça do Giraldo pergunto-me o
que significa o LOCAL do corpo local, porque estes
corpos me parecem tudo menos locais, falam línguas
estrangeiras, tocam na estátua sem pudor
e com ironia, e ninguém parece chegar a esta praça,
todos parecem de passagem para algum lado,
tirando uns que especificamente acabam de
chegar (estes sim)
para especificamente colocarem as mãos na fonte e dizer
está tão boa” (do diário do dia #1)
Mas porquê isto das chegadas, e onde foram inventar essa do corpo e afinal de contas, porque é que vocês vêm para aqui?
1. Porque nos lembrámos de construir um projecto sobre esse tema. Queremos investigar isso a fundo. De partir já falámos e falámos. E agora, por uma vez, ao contrário do costume.
2. O corpo quando chega não fomos nós que inventámos. Nós só estamos a responder.
3. Porque gostamos de vir. Permitem-nos?
Esta residência tem como único objectivo pesquisar, reflectir, procurar e derivar.
Faremos uma apresentação dos materiais reunidos e algumas das nossas reflexões. Entretanto, damos passeios solitários entre as 9h30 e as 12h30 de cada dia nesta cidade branca – e chamamos a essas incursões Derivas. Elas são o esqueleto de tudo isto. Com elas, construímos coisas durante a tarde, que mais tarde ainda serão já não coisas mas terão nome, estarão em frente a alguém, estarão presentes.
J.
————————————————————————————————————-
Os Fragmentos Delas
Residência referente ao projecto Porque na Noite Terrena Sou Mais Fiel que um Cão
Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo – Abril 2009
[Voltei a ela (mas não abandonei elizabeth) - Joana Craveiro]
Discursos para o Dr. Frankenstein (Margaret Atwood)
i
Eu, o performer
na arena tensa, resplandecia
sob a lua fluorescente. Estava dobrado
escondido pela mesa. Via o que focava
o meu intento: o vazio
O ar cheio de um éter de saudações.
O meu pulso chegava ao bisturi
ii
A mesa é um vazio liso,
árido como a liberdade total. Mas observa
Uma rápida torção
como tirar a tampa de uma garrafa
e é um esqueleto
vivo, meu, redondo,
que se apresenta no prato à minha frente
vermelho como uma romã,
cada célula uma luz quente.
iii
Cerco, confronto
o meu oponente. A coisa recusa-se ser moldada, move-se
como levedura. Eu empurro
a coisa reage.
Dissolve-se, grunhe, crescem-lhe cruas garras;
O ar está enevoado de sangue.
Salta. Corto
com uma delicada precisão.
Os espécimes
arrumados nas prateleiras, aplaudem.
A coisa cai com um baque surdo. Um gato
anatomizado.
Ó secreta
forma do coração, agora tenho-te.
iv
Agora vou ornamentar-te.
Do que é que gostavas?
Pergaminhos barrocos nos teus tornozelos?
Um umbigo de prata?
Sou o tecelão universal;
tenho oito dedos.
Complico-te
cerco-te com cordas intrincadas.
Em que teia te devo atar?
Gradualmente, prendo-te.
Que equação devo
gravar e selar no teu crânio?
De que tamanho te farei?
Onde devo colocar os teus olhos?
v
Fui insano com arte:
Fiz-te perfeito.
Devia antes ter escolhido
Enrolar-te tão pequeno quanto uma semente,
começos confiáveis. Agora recuo
perante este conjunto de resultados:
âmago e casca, a carne do meio
já a ficar podre.
Estou na presença
do deus destruído:
um cascalho de tendões,
tornozelos e crus sustentáculos.
Sabendo que a obra é minha
como posso amar-te?
Estes arquivos de tempo
potencial exalam medo como se fosse um cheiro.
(continua) (1968)
***
Os Fragmentos Delas
Residência referente ao projecto Porque na Noite Terrena Sou Mais Fiel que um Cão
Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo – Abril 2009
[De Fora - Joana Craveiro]
Elas fazem acções como quem enumera uma lista de possibilidades.
Ela cola os dedos com super-cola 3, e alguém lhe diz que também já fez o mesmo.
Há uma estranha irmandade entre elas.
Elas não gostam de estar confinadas em quadrados, rebelam-se contra quem as colocou ali. É sempre mais fácil entrar em relação, ainda que seja difícil manter uma relação.
Ela mergulha a cabeça no balde com água e todos temos medo que ela não volte. Mas volta. Pergunto-lhe se o cabelo ficou bem lavado. Ela ri-se.
Elas cantam 10 vezes a música “Não Há Centro,” composta por elas.
Desespero lentamente, mas não lhes digo.
Adoraria saber ainda saudar toda a gente, quando este Inverno passar,
j.
***
Os Fragmentos Delas
Residência referente ao projecto Porque na Noite Terrena Sou Mais Fiel que um Cão
Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo – Abril 2009
[Inventário de Património - Joana Craveiro]
Do que elas fizeram entre ontem e hoje, gostaria de falar do Inventário de Património.
Será o #3 da nossa apresentação.
A ideia era organizarem todo o material produzido até ao momento e apresentá-lo não performativamente mas sim de uma outra qualquer forma. No fundo, o material gerar mais material, variações sobre o material primeiro, derivações, despojos, coisas, enfim.
Dá-me sempre ideia de que andamos às voltas com isto das súmulas e das organizações, mas é isso mesmo que nos leva a escavar. Nesta escavação encontramos algo que ainda não sabíamos que queríamos dizer. Afinal era isto. Ou não era isto mas tornou-se nisto.
É de facto simples, mas de aparência complexa. Fiquemos nesta ideia de que é simples, porque isso ajuda-nos nos momentos de aflição - que são muitos. Escrevi sobre a crise de ontem, mas não referi que o caracter chinês para crise é também representativo de oportunidade. Ainda não encontrámos as oportunidades do ontem, mas sabemos que elas estão lá.
Hoje a Inês multiplicou os diabos, as catástrofes dos diabos, uma planta dos diabos – “as plantas têm cicatrizes,” disse ela, “na vida há uma data de reis dos elfos, uns louros, outros morenos, outros de cabelos encaracolados, uns que falam e uns que não”
Há uma frase do Breton que sempre sonhei citar, vou fazê-lo agora:
“gostaria de saber-vos loucamente amada.”
Ontem a Tânia depurou o Jogo das Sete Vidas, na sua complexa cabala de números e palavras chave.
A Rosinda presenteou-nos com uma lição de geografia do Inventário do Matrimónio, protagonizado pela Pinguim.
Fechemos por aqui o sumário, que tem frio.
Ainda sem palavras suficientes para vos saudar, mas plena de convicção em expressões como até breve, até sempre, até à vista, até à próxima
Despeço-me uma vez mais,
j.
***
Os Fragmentos Delas
Residência referente ao projecto Porque na Noite Terrena Sou Mais Fiel que um Cão
Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo – Abril 2009
[Uma elisabete - Joana Craveiro]
Hoje debruçar-me-ei sobre essa uma elizabete “o meu cérebro produzia ilhas”
e sobre o acto de escavar proposto por Benjamin e talvez telefone ao rui para que nos dê tarefas que nos levem por montemor afora e os tirem desta sala de ensaio onde, apesar de não agonizarmos, entramos lentamente em crise
como sempre acontece a meio de tudo o que fazemos.
não há com saudar-vos o suficiente por isso apenas direi
até breve,
j.
***
Os Fragmentos Delas
Residência referente ao projecto Porque na Noite Terrena Sou Mais Fiel que um Cão
Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo – Abril 2009
[Ainda Atwood, hoje com ela - Joana Craveiro]
“és tão inocente quanto uma banheira
cheia de balas.
(…)
Então e eu
então e eu
confortando-te nessa fronteira
que estás sempre a tentar atravessar?
Sou o horizonte
em direcção ao qual avanças, a coisa que nunca consegues deixar
Sou também o que te rodeia:
o meu cérebro
espalhado com as tuas
latas, ossos, conchas vazias,
o lixo das tuas invasões.” (1968)
***
Os Fragmentos Delas
Residência referente ao projecto Porque na Noite Terrena Sou Mais Fiel que um Cão
Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo – Abril 2009
[Pequenas acções - Gonçalo Alegria]
***
Os Fragmentos Delas
Residência referente ao projecto Porque na Noite Terrena Sou Mais Fiel que um Cão
Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo – Abril 2009
[Joana Craveiro]
No dia 25 de Abril de 2008 acordei doente pela primeira vez em quatro anos. Acordei com vontade de não sair dali, da cama grande. Na mensagem enviada 3 dias antes, ela tinha dito:
“Mantém o telefone ligado
O tio está mal.”
Agora eu tinha acordado da viagem do dia anterior, do mal que ele estava, da memória de uma infância que não foi a minha.
—
Estávamos dispostas assim. Tu aí, eu aqui, ela ali, ele ao centro e cadeiras à volta. Havia frio e alguém foi buscar uma bilha de gás. Alguém rezava o terço baixinho. Sabes quantas coisas não te disse?
Pensei que podíamos jogar um jogo, Elizabete.
Elizabete?
Sim?
Onde estás?
Aqui.
Ouviste o que eu disse?
Acho que fica mal jogar agora.
Ela disse: nem penses falar disto numa peça de teatro.
Matas-me?
Mato-te.
—
A Ana morreu a uma quarta-feira. Estávamos todos lá.
A Ana disse que se tivéssemos tempo devíamos ir visitá-la. Mas nós estamos sem tempo agora.
Talvez em breve.
—
Margaret Atwood escreveu:
“Esta é uma fotografia minha
Foi tirada há algum tempo atrás.
A princípio parece ser
uma impressão
manchada: linhas desfocadas e flocos cinzentos
misturados com o papel;
e então, à medida que a observas
vês, no canto superior esquerdo
uma coisa que é como um ramo: parte de uma árvore
(bálsamo ou abeto) emergindo
e, à direita, a meio,
o que deveria ser um declive
suave, uma pequena estrutura de uma casa.
Atrás há um lago,
E por detrás disso, alguns montes baixos.
(A fotografia foi tirada
no dia a seguir a eu me ter afogado
Estou no lago, no centro
da fotografia, mesmo abaixo da superfície.
É difícil dizer onde
precisamente, ou dizer
quão grande ou pequena eu sou:
o efeito da água
na luz é uma distorção
mas se olhares o tempo suficiente
eventualmente
conseguirás ver-me.)” (1966)
***
Os Fragmentos Delas
Residência referente ao projecto Porque na Noite Terrena Sou Mais Fiel que um Cão
Oficinas do Convento, Montemor-o-Novo – Abril 2009
[Inspirações, materiais visionados - Gonçalo Alegria]
Brothers Quay. Excerto do Institute Benjamenta.
Meredith Monk. Excerto do Book of Days, (the Churchyard Entertainment.)
***
Os Fragmentos Delas
Residência referente ao projecto Porque na Noite Terrena Sou Mais Fiel que um Cão
Rua das Enfermeiras da Grande Guerra, Lisboa – Março, 2009
[Inês, diabos e iconoclasia - Gonçalo Alegria]

Tenho de pensar sobre isto. Agora ainda não consigo.
***
Os Fragmentos Delas
Residência referente ao projecto Porque na Noite Terrena Sou Mais Fiel que um Cão
Rua das Enfermeiras da Grande Guerra, Lisboa – Março, 2009
[Tânia #1 - Gonçalo Alegria]

Tânia segura sobre quem trabalha
Olá Tânia. Foi uma boa sessão de trabalho hoje contigo no meio da bicharada. Bem vinda a esta galeria de trabalhos nocturnos. Devo confessar que já tinha saudades de trabalhar só contigo. A última vez foi para te tornares velha.
Numa nota menos pessoal: Hoje trabalhámos sobre categorias, retirar sumo através de escolhas aleatórias, definir objectivos concretos no caos, depurar. Como criar um jogo, ou o que escolher sem dar cabo da liberdade.
O nosso depósito está a ser atestado de gasolina/gasóleo, depois é ver se ainda apanhamos a neve a acontecer.
pissOut, Alegria.
***
Os Fragmentos Delas
Residência referente ao projecto Porque na Noite Terrena Sou Mais Fiel que um Cão
Rua das Enfermeiras da Grande Guerra, Lisboa – Março, 2009
[Rosinda #1- Gonçalo Alegria]

Rosinda é uma das estrelas do firmamento do TdV. Agora que já classifiquei este post como uma grande pirosada vamos dar abertura à publicação no blogTdv de alguns materiais da construção do nosso próximo trabalho:
Porque na Noite Mais Terrena Sou Mais Fiel que Um Cão.
Temos ainda a Tânia Guerreiro e a Inês Rosado a fazerem parte deste projecto dirigido pela Joana Craveiro e assistido por mim, Gonçalo Alegria.
É um trabalho a partir dos universos de Margaret Atwood, Marina Tsvetáieva e Elizabeth Bishop. Não será algo de fidedigno ou à letra, o processo de trabalho com as 3 criadoras será de experimentação e desenvolvimento de pesquisa dramaturgica.
